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Angra Jazz 2019

(Textos de Paulo Barbosa e Leonel Santos)

Leonel Santos

Três concertos fizeram da edição 2019 do Angra Jazz um festival memorável, mas aos meus ouvidos e olhos o momento mais alto aconteceu na apresentação do Axes de João Mortágua.

João Mortágua «Axes»
Sexteto de quatro saxofones e duas baterias, o que fez a diferença foi, não apenas a singularidade da formação (enfim, singularidade em Portugal, porque os quartetos de saxofone, se não são propriamente uma novidade, eles são, ainda assim, raros), ou até o nível dos músicos e das composições, mas a alegria da música. 
A matriz da música, diria, nem anda muito longe do que se conhece o que foi o World Saxophone Quartet com o barítono a funcionar como um baixo e o fundamental da estrutura rítmica a ser construída pelos saxofones, cruzando-se em diálogos ou competindo nos solos, mas há uma alegria contagiante, um humor desconcertante e uma inventiva que contamina a plateia. As baterias, também, estão lá, mas nunca se replicam ou confundem, e não se substituem aos saxofones no ritmo, mas acrescentam. Também eles, dois bateristas com algo de dramático e quase histriónico por vezes.
 Os solistas principais foram Mortágua e José Soares, duas personalidades musicais bem distintas, dois grandes músicos de Jazz, dois improvisadores de excepção em qualquer parte do mundo.
Singular na proposta, arrojado na aventura, voluptuoso na execução, contagiante no humor, emocionante, este Axes de João Mortágua é um dos exemplos maiores do momento excitante que o Jazz português está a viver.
(Não deixa de ser curioso que, já depois do concerto, quando abordado sobre algumas similitudes com o World Saxophone Quartet - 1977-2011, embora o fundamental da sua actividade se tenha dado nos anos 70-80 -, João Mortágua tenha revelado que, quando anteriormente confrontado com o facto, tivesse candidamente revelado que… nunca tinha ouvido.)

Miguel Zenón «Sonero: The Musico of Ismael Rivera»
Porto-riquenho de origem, Miguel Zenón é um dos mais importantes saxofonistas da actualidade.
Com um repertório retirado do último disco «Sonero: The Music of Ismael Rivera», Miguel Zenón confirmou o que tinha antecipado na apresentação do festival com uma música que funde as origens da sua terra natal com o Jazz, numa mescla singular que não se confunde com o «latin-jazz», mas onde se podem identificar elementos da música popular de Porto Rico com a tradição Jazz que remete para o Jazz vertiginoso de Charlie Parker; o que se sente sempre na técnica e no discurso.
Miguel Zenón é um músico impetuoso e bastaram os primeiros acordes para se perceber que ele tinha ganho a plateia do AngraJazz. Claro que para isso contribuíram também os seus acólitos, três músicos superlativos, o assertivo e sempre bem humorado, pleno de recursos, piano de Luis Perdomo (venezuelano, um repetente em Angra), o arrebatado Henry Cole (baterista, outro porto-riquenho) e o contrabaixista austríaco Hans Glawischnig, discreto, mas seguro e eficiente. Quarteto que é mais do que a soma das partes, ele funciona sempre como uma máquina bem oleada, imparável e contagiante.
Música incendiária, genuína, a alegria do Jazz, generosidade e entrega, em boa hora acrescentado à nobre lista do AngraJazz. Um memorável concerto.

Frank Kimbrough, «Monk's Dreams: The Complete Compositions of Thelonious Sphere Monk»
Reunir num só álbum (seis discos) todas as composições que Thelonious Monk escreveu em vida, setenta (!), é um feito raramente realizado, e foi o que o pianista Frank Kimbrough se propôs em «Monk's Dreams: The Complete Compositions of Thelonious Sphere Monk» de 2018, que foi apresentar em Angra do Heroísmo.
Claro que hora e meia não chega para tocar setenta composições e o concerto se resumiu a uma vintena, mas com a eloquência de quem sabe do que fala.
A formação escolhida foi a do disco, com o companheiro de aventuras Scott Robinson, e os veteranos Rufus Reid e Billy Drummond.
Quarteto com saxofone foi uma das formações privilegiadas de Thelonious Monk, e estes músicos não deixaram os créditos por mãos alheias, a fama, o proveito e o longo conhecimento que têm da obra e do espírito de Monk.
Todo o concerto foi um desfiar com tanto de maravilhoso como de conhecimento, verdadeiramente erudito, diria, mas houve alguns momentos inesquecíveis protagonizados por Scott Robinson nos saxofones, ou essoutro em que Rufus Reid antecipa o Round Midnight no contrabaixo, verdadeiramente antológico. E valeria a pena referir como o líder, Kimbrough, ofereceu não poucos vezes o protagonismo aos seus acólitos.
A forma como Kimbrough toca não tem absolutamente nada a ver como a forma como Monk abordava o piano, e Kimbrough nem tentou assemelhar-se. Kimbrough é lírico conde Monk era rude, Kimbrough é excessivo onde Monk era parco, as paridades residiram apenas na formação escolhida, e aqui Kimbrough escolheu o Monk bopper, e poderia ter escolhido o Monk erudito (no Monk a solo, quase sempre). A erudição residiu na forma como o Kimbough investiu no que não está explícito na música de Monk e que Kimbrough soube encontrar. E depois disso na banda, na inventiva desmesurada de Scott Robinson, na subtileza de Rufus Reid e na certeza de Billy Drummond.
Outro inesquecível concerto de Jazz foi o que realizou o quarteto de Frank Kimbrough no Angra Jazz.

Orquestra AngraJazz com Carlos Azevedo
Se nos últimos anos a Orquestra AngraJazz se tem focado basicamente na interpretação de standards, o convite a Carlos Azevedo fê-la mergulhar num território diferente, quiçá mais exigente. O director da Orquestra Jazz de Matosinhos (um dos directores, com Pedro Guedes) escolheu algumas das suas composições mais antigas e pouco tocadas, que a orquestra tocou, para além de um tema de Carlos Bica, um outro de Bernardo Sassetti e ainda o clássico «I’m Old Fashioned»; tendo Carlos Azevedo alternado com Pedro Moreira na direcção da orquestra, e Claus Nymark ocupado um lugar na bancada dos trombones.
O concerto decorreu bastante bem, mesmo se se pôde denotar alguma cautela num repertório desconhecido, com dois saxofones a distinguir-se nos solos: Rui Melo e Mauro Lourenço; para além do escorreito piano de Antonella Barletta.
Diria que essa cautela terá sido bastante causada pela inflexão na direcção que Moreira e Nymark têm imprimido na orquestra, mais balanço, mais swing, contrariando as composições escolhidas por Carlos Azevedo, bastante melancólicas e intimistas, quase sempre. E se atentarmos que a orquestra teve apenas algumas horas para ensaiar o difícil repertório, ele até excedeu as expectativas.
Curioso o tema proposto pelo músico do Porto, «From Porto With Love», a rematar um concerto mais que agradável, a atestar como a Orquestra Angra Jazz é capaz de responder de forma assertiva aos desafios que lhe são propostos.

The Alan Harris Band
Gosto de oferecer o benefício da dúvida a músicos que não conheço, mas, de facto os discos antecipavam o desastre, e o concerto acrescentou alguns incompreensíveis. Música para quem gosta de ouvir música baixinho, em fundo, do tipo Smooth FM (música para quem não gosta de música), o barítono com voz de veludo não convenceu, conseguindo mesmo estragar alguns standards belíssimos.
Incompreensível foi o facto do cantor se ter revelado incapaz sequer de tocar um blues com alguma alma, como também a incapacidade da banda funcionar como um colectivo. Uma pianista a dar de vez em quando um ar da sua graça, uma baterista a fazer habilidades e um contrabaixista a tocar os tempos não fazem uma banda e a jovialidade do cantor soou sempre a fabricado. 
Para esquecer.

Émile Parisien “Sfumato” Quintet
O «Sfumato» de Émile Parisien tem somado prémios dos dois lados do Atlântico, tendo-se revelado também um êxito junto do público. Convidados como Wynton Marsalis, Joachim Kühn ou Michel Portal têm ajudado a essa popularidade. Música impetuosa, com uma grande premência rítmica, com elementos que diríamos pop ou folk (de perfume mediterrânico via Roberto Negro ou Manu Codjia, piano e guitarra) o Sfumato fez um concerto bastante aplaudido, mas ressentiu-se da ausência do anunciado Michel Portal, que adoeceu (o rapaz já tem 84 anos, mas apesar de tudo ele ainda é o Michel Portal, um dos mais importantes músicos de Jazz da Europa de sempre). Por diversos momentos faltou o solista, falha que a custo a banda foi resolvendo, prejudicada que foi pela expectativa da presença da estrela.
Mas a música do Sfumato é muito comunicativa e o grupo esteve sempre bem. Os nossos olhos estavam também virados para o baterista português Mário Costa, que esteve à altura, até porque, diria, a partitura era bem menos exigente do que ele é capaz e já revelou noutros momentos.
O repertório constou basicamente de originais de Parisien e um tema de Joachim Kühn, completando o concerto com uma longa suite em três partes, «Le Clown Tueur de la Fête Foraine».

Jazz na Rua
Paralelamente à programação nobre do festival, no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo, a Associação AngraJazz organizou alguns outros concertos em vários locais de Angra, o Jazz na Rua, com o Wave Jazz Ensemble, o Sónia Pereira Trio e o João Mortágua Quarteto. Alguns concertos foram desconvocados devido ao furacão Lourenzo, tendo assistido a um dos concertos de Sónia Pereira (Biblioteca Pública Luís da Silva Ribeiro) e dois do quarteto de Mortágua (Alto da Sé Café e Expert).
Com uma voz com uma boa amplitude e dotes vocais, Sónia Pereira tem um caminho a percorrer ainda, na técnica Jazz e na abordagem dos temas, que desembocam amiúde numa mesma forma. E se a Sónia Pereira quiser ser mais do que uma cantora de bar, a escolha do repertório é também importante; as molezas brasileiras não ajudam.
Já os concertos de Mortágua foram outra coisa. Claro que Mortágua e José Soares são dois saxofonistas impetuosos, plenos de recursos, e mesmo uma actuação descontraída numa sala sem condições é um grande concerto. Diferentes no repertório, temas rápidos no primeiro concerto, a revelar um baterista dramático e arrebatado (Pedro Vasconcelos) e um contrabaixista atento e eficaz (Diogo Diniz), e um segundo privilegiando as baladas, mais rico nos detalhes.    
AngraJazz 2019, ou de como se faz um grande festival de Jazz.

(JazzLogical esteve no XX AngraJazz a convite do festival)

 

 

Paulo Barbosa

Decorreu entre os dias 3 e 5 de outubro a 21ª edição do festival Angrajazz.

A Orquestra Angrajazz abriu, como de costume, a série de seis concertos no palco principal do festival, no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo. A orquestra é uma aposta forte da Associação Angrajazz, que a criou e tem mantido desde 2002 e que produziu e organizou as vinte e uma edições com que conta o festival.
A música de Carlos Azevedo – o arranjador convidado este ano – não é fácil para uma orquestra habituada a fazer por “swingar” num sentido mais convencional, mas a qualidade interpretativa do coletivo, ainda mais quando se soube que este repertório foi ensaiado em poucas horas, não deixou de impressionar.
Mas, para estes ouvidos, os momentos mais cativantes do concerto surgiram logo no início do concerto, com um arranjo de “Azul é o Mar” (Carlos Bica) e uma leitura do standard “I’m Old Fashioned”, agraciado por um belíssimo solo de trombone por Claus Nymark. A fechar o concerto, e constituindo outro dos seus pontos mais altos, ouviu-se “FPWL” (“From Porto With Love”), composição e arranjo escritos por Azevedo para a Orquestra Angrajazz.
Globalmente, ficou a certeza de uma orquestra capaz de cumprir com desafios impensáveis há uma dezena de anos, pelo que estão todos de parabéns: músicos, maestros e arranjador convidado.

O concerto seguinte, pelo grupo do saxofonista soprano Émile Parisien, teve os seus altos e os seus baixos. Parte da música ali tocada ilustra muito bem algumas das encruzilhadas maiores a que, de forma muito genérica, mas com as devidas exceções, o jazz europeu se tem vindo a condenar. Falo de longos rubatos, onde a energia e a excitação rítmica que caracteriza muito do melhor jazz são, obviamente, postas de lado. Quando a componente rítmica é valorizada, queixo-me frequentemente da circularidade mediterrânica, tantas vezes desprovida de swing ou mesmo de qualquer tipo de sincopação, o que se aplica particularmente ao pianista desta formação – a surpresa rítmica é, desde sempre, um dos mais entusiasmantes ingredientes desta música a que chamamos jazz, pelo que a sua desvalorização invariavelmente me deixa com uma indesejável sensação de desperdício.
Posto tudo isto, urge reconhecer que o concerto de Parisien apresentou vários episódios de grande interesse, particularmente aqueles em que a acumulação gradual de tensão musical culmina numa libertação de energia que nos arrasta para dentro da própria música e à qual, como tal, seria impossível ficar indiferente. Nesses momentos, é o próprio líder quem se torna absolutamente irresistível, mas quem mais me terá enchido as medidas acabaram por ser o contrabaixista Simon Tailleu e o “nosso” Mário Costa, que em vários momentos se revelou como um verdadeiro caso sério da bateria, em Portugal e além-fronteiras.

João Mortágua, com um grupo constituído por quatro saxofonistas e dois bateristas, abriu a segunda noite do festival com um concerto que pode, pelo menos no seu início, não ter sido muito fácil para alguns ouvidos, mas que manteve, do princípio ao fim, uma impressionante qualidade musical. O facto é que toda a plateia acabou por se render à originalidade da constituição instrumental do grupo e da música de Mortágua, que, enquanto saxofonista – aqui principalmente no soprano –, aproveitou por nos lembrar de uma série de motivos pelos quais é hoje, inquestionavelmente, um dos mais brilhantes improvisadores do nosso jazz. Para além do líder, o outro músico que se destacou enquanto solista, com um som impetuoso e um notável cuidado na construção de cada uma das suas improvisações, foi o saxofonista alto José Soares, um jovem ao qual se tem tornado cada vez mais inevitável dedicar séria atenção – trata-se de um músico que irá, seguramente, agitar o jazz nacional nos tempos que aí vêm.
Não poderia, aliás, deixar de referir o maravilhoso final de tarde que Mortágua e Soares, com o contrabaixista Diogo Dinis e o baterista Pedro Vasconcelos, nos haviam proporcionado já no dia anterior, no Auto Sé Café. Foi um concerto sem grandes pretensões, com o quarteto a tocar standards dos bons e, acima de tudo, muito bem, com grande ímpeto e um profundo entrosamento musical.

Seguiu-se o quarteto de Frank Kimbrough, com um concerto que constituiu uma espécie de “best of” ao vivo da mais recente edição discográfica do pianista.
Em 2018, Kimbrough trouxe a público uma belíssima caixa de seis CDs com interpretações da totalidade da obra de Thelonious Monk, um dos mais geniais compositores de toda a história do jazz. O material temático era, portanto, e logo à partida, do mais elevado nível e a leitura pelo quarteto dos primeiros quatro temas do concerto (“San Francisco Holiday”, “Light Blue”, “Brake’s Sake” e “Think of One”) nunca desiludiu, mas nada nos poderia fazer prever a arrepiante musicalidade com que, bem no meio do alinhamento do concerto, o contrabaixista Rufus Reid introduziu “’Round Midnight”, tema ao longo do qual todos os músicos estiveram ao mais alto nível, sendo particularmente louvável a forma como o baterista Billy Drummond fez tanta e tão boa música com tão pouco...
Daí para diante, e até ao final do concerto, Kimbrough e os seus colegas mantiveram-se em alta, fazendo excelente uso das nuances angulares (ainda que muitas vezes suavizadas) da música de Monk, tanto coletivamente, na exposição e reexposição dos temas, como individualmente, no discurso improvisado de cada elemento do quarteto. Não poderia, no entanto, deixar de destacar o meu fascínio pela manipulação do timbre do sax tenor do inspiradíssimo Scott Robinson, que ora soava como um sax alto, ora como um soprano, chegando a roçar o sopranino, sempre sem circo nem trivialidade, sempre ao inteiro serviço da música e sempre altamente musical. Cheguei ao fim da noite com a sensação de que Monk teria gostado de ouvir o que Robinson teve para nos dizer com a sua música... E isso é bom!

O concerto do cantor Alan Harris trouxe-me à mente, por várias vezes, uma frase inscrita numa das t-shirts do Angrajazz: “Jazz is not a what; it is a how” (Bill Evans). E passo a explicar: o repertório apresentado por Harris – o que o cantor cantou e a sua banda tocou (o “what”) primou pela qualidade; o problema foi o “how”, ou a forma de o cantar e de o tocar. Com uma projeção, uma tessitura e uma extensão vocais extremamente reduzidas, nada ajudadas por um timbre açucarado e um controlo da respiração que deixa muito a desejar, todos os temas foram alvo do mesmo tipo de tratamento, instalando-se a monotonia dentro de cada interpretação e ao longo de todo o concerto, com cada tema a ser cantado da mesma forma que o anterior. A banda cumpriu (particularmente o contrabaixista), mas nunca chegou a agradar (principalmente a pianista) – por tudo o que acima disse, de estranhar seria que Harris conseguisse ter consigo uma banda de alto nível. E, como se tudo isto não tivesse bastado, o concerto alongou-se por cerca de duas horas, uma eternidade para quem, como eu, impacientemente desejava que chegasse a hora da subida ao palco do mais aguardado grupo nesta edição do festival.

Dificilmente o chavão de “fechar com chave de ouro” se poderia aplicar tão bem como a esta edição do Angrajazz. O saxofonista Miguel Zénon e o seu quarteto, com Luis Perdomo ao piano, Hans Glawischnig no contrabaixo e Henri Cole na bateria, ofereceram-nos um concerto de cortar a respiração. Música verdadeira, sentida, tocada do coração, por quatro músicos dotados de qualidades técnicas e interpretativas verdadeiramente extraordinárias. Quatro músicos que sabem tocar em (qualquer) grupo, mas que tocam ainda melhor neste quarteto, uma formação na qual os todos se (inter)ouvem profundamente, reagem imediatamente e, claramente, sentem um enorme prazer em tocar uns com os outros e na forma como o fazem. Aproveitaram para apresentar em Angra a música do álbum “Sonero”, que era já um dos meus discos favoritos de 2019, mas, como seria de esperar de um quarteto deste calibre, a música soou ainda melhor em concerto. É difícil destacar um músico quando a união musical é tão grande, mas arriscaria dizer que Luis Perdomo, que Zenón parecia particularmente interessado em deixar brilhar, foi “o músico do festival”.

(Paulo Barbosa esteve no Angra Jazz a convite do festival)

Axes
(foto por Rui Caria)
Frank Kimbrough Quartet
(foto por Rui Caria)
MIguel Zenón
(foto por Rui Caria)
Orquestra AngraJazz
(foto por Rui Caria)
Émile Parisien
(foto por Rui Caria)
Miguel Zenón Quartet
(foto por Rui Caria)

 

 

 

Setembro Angra do Heroísmo  
Sex 27 Verde Maçã Café 18.00 Jazz na Rua Wave Jazz Ensemble Antonella Barletta (p), Rui Melo (st), Paulo Borges (t), Antero Ávila (b), Nuno Pinheiro (bat)
Sáb 28 Hotel do Caracol 21.30 Jazz na Rua Sónia Pereira Trio Sónia Pereira (voz), Antonella Barletta (p), Roberto Rosa (t)
Dom 29 QB Food Court 18.00 Jazz na Rua Wave Jazz Ensemble Antonella Barletta (p), Rui Melo (st), Paulo Borges (t), Antero Ávila (b), Nuno Pinheiro (bat)
           
Seg 30
Pousada do Castelinho 18.00 Jazz na Rua Sónia Pereira Trio Sónia Pereira (voz), Antonella Barletta (p), Roberto Rosa (t)
Outubro Angra do Heroísmo  
Ter 1 Café Aliança 18.00 Jazz na Rua Wave Jazz Ensemble Antonella Barletta (p), Rui Melo (st), Paulo Borges (t), Antero Ávila (b), Nuno Pinheiro (bat)
Qua 2 Blues Bar 22.30 Jazz na Rua jam session
João Mortágua Quarteto
João Mortágua (ss, sa), José Soares (sa), Diogo Diniz (ctb), Pedro Vasconcelos (bat) e outros
Qui 3
Escola EBS e Ensino Artístico Tomás Borba 11.00 Jazz na Rua
João Mortágua Quarteto
(Acção de divulgação para alunos)
João Mortágua (ss, sa), José Soares (sa), Diogo Diniz (ctb), Pedro Vasconcelos (bat)
Alto da Sé 18.00 Jazz na Rua João Mortágua Quarteto João Mortágua (ss, sa), José Soares (sa), Diogo Diniz (ctb), Pedro Vasconcelos (bat)
Centro Cultural e de Congressos 21.30  

Orquestra Angrajazz
conv. Carlos Azevedo

Pedro Moreira (dir), Claus Nymark (dir), Carlos Azevedo (p), Davide Corvelo (sa), Filipe Gil (sa), Rui Borba (sa), Rui Melo (st), Mauro Lourenço (st), José P. Pires (sb), Paulo Borges (t), Bráulio Brito (t), Roberto Rosa (t), Sérgio Cabral (t), Rodrigo Lucas (trb), Mário Melo (trb), Manuel Almeida (trb), Edgar Marques (trom), Gonçalo Ormonde (trom), Antonella Barletta (p), Nivaldo Sousa (g), Paulo Cunha (ctb), Nuno Pinheiro (bat)
Emile Parisien Sfumato Quintet Emile Parisien (ss, st), Roberto Negro (p), Manu Codjia (g), Simon Tailleu (ctb), Mário Costa (bat) + Michel Portal (clab)
Sex 4
Biblioteca Pública Luís da Silva Ribeiro 11.00 Jazz na Rua

João Mortágua Quarteto
(Acção de divulgação para alunos)

João Mortágua (ss, sa), José Soares (sa), Diogo Diniz (ctb), Pedro Vasconcelos (bat)
Biblioteca Pública Luís da Silva Ribeiro 18.00 Jazz na Rua Sónia Pereira Trio Sónia Pereira (voz), Antonella Barletta (p), Roberto Rosa (t)
Centro Cultural e de Congressos 21.30   João Mortágua AXES João Mortágua (ss, sa), José Soares (sa), Hugo Ciríaco (st), Rui Teixeira (sb), Alex Lázaro (bat, per), Pedro Vasconcelos (bat, per)
Frank Kimbrough Quartet
plays Monk
Frank Kimbrough (p), Scott Robinson (s), Rufus Reid (ctb), Billy Drummond (bat)
Sáb 5
Teatro Angrense 14.30 Jazz na Rua
João Mortágua Quarteto
(Acção de Formação Filarmónicas)
João Mortágua (ss, sa), José Soares (sa), Diogo Diniz (ctb), Pedro Vasconcelos (bat)
Expert 18.00 Jazz na Rua João Mortágua Quarteto João Mortágua (ss, sa), José Soares (sa), Diogo Diniz (ctb), Pedro Vasconcelos (bat)
Centro Cultural e de Congressos 21.30   The Allan Harris Band Allan Harris (voz), Arcoiris Sandoval (p), Nimrod Speaks (ctb), Shirazette Tinnin (bat)
Miguel Zénon Quartet Miguel Zénon (s), Luis Perdomo (p), Hans Glawischnig (ctb), Henry Cole (bat)

Antecipação do Angra Jazz 2019

O que faz a diferença no Angra Jazz é que apesar das adversidades, desde logo a insularidade, ele mantenha um nível de que poucos festivais em Portugal se podem gabar. E até passada a fasquia dos vinte anos poderia admitir-se que a edição de 2019 não fosse tão exigente. Mas dos seis concertos previstos, pouco poderá apontar-se à programação.

Fiel a um modelo testado, o festival conta com dois grupos nacionais e quatro internacionais, entre os quais um concerto vocal, concessão a um público mais alargado.

Entre os dois grupos nacionais, o festival conta com a Orquestra AngraJazz, uma orquestra local, promovida e desde a primeira hora acarinhada pela Associação AngraJazz que programa o festival. Não tem sido fácil manter uma orquestra numa ilha onde quase não é possível ouvir Jazz (ao vivo) com regularidade e onde os músicos pouco contactam com outros músicos, levando-a a recorrer amiúde a um repertório clássico. A novidade deste ano é o convite a Carlos Azevedo, que partilhará com Pedro Moreira e Claus Nymark a direcção da orquestra, e que lhe oferecerá o grosso do repertório a apresentar, para além de outros compositores como Mário Laginha ou Carlos Bica. Pianista, professor e um dos líderes da Orquestra Jazz de Matosinhos, o desafio é grande para Carlos Azevedo e a orquestra. Como sempre a Orquestra AngraJazz terá honras de abertura do festival.

O outro grupo português é o Axes de João Mortágua, um grupo que fez o que foi votado pela crítica nacional o melhor disco de 2017, precisamente «Axes». Axes é uma associação singular de quatro saxofones e duas baterias, que ameaça incendiar a plateia (e o balcão) do Centro de Congressos. A direcção é de Mortágua e o Axes abre o segundo dia do festival.

A «concessão» de 2019 tem o nome de Allan Harris e a sua The Allan Harris Band. Um barítono com voz de veludo, experiente nos standards e na tradição vocal Jazz. Nascido no Harlem (New York) Harris é um cantor ecléctico que mescla Jazz e rock e pop e blues, numa forma que mergulha no smooth jazz sem preconceito e faz o encanto de muito público. Toca à frente de um trio de piano clássico e talvez toque guitarra também e abre o último dia do festival. A ouvir vamos.

Logo no primeiro dia, a seguir à Orquestra Angra Jazz, toca o premiado Sfumato Quintet de Émile Parisien (disco do ano 2016 em França, entre outros), um grupo que conta entre os seus membros com o baterista português Mário Costa e a lenda do Jazz europeu Michel Portal em clarinete baixo. Embora o Parisien tenha tocado em Portugal em diversos contextos, este arrebatado Sfumato promete um grande concerto e vai apresentar-se pela primeira vez ao público nacional.

A fechar a noite de sexta-feira, outro grande músico, Frank Kimbrough, bem conhecido dos aficionados do Jazz nacional. Kimbrough é o pianista da orquestra de Maria Schneider, é um dos líderes do Herbie Nichols Project que também tocou em Portugal por (pelo menos, que me recorde) três vezes, e em Portugal tocou em diversas formações e contextos. Kimbrough é um verdadeiro erudito, um investigador e um pianista de uma sensibilidade e proficiência extraordinárias. Profundo conhecedor da música de Thelonious Monk, fez em 2019 um triplo álbum onde interpreta todas as composições de Monk, e será este o projecto que irá apresentar à frente do seu quarteto em Angra do Heroísmo, também em absoluta estreia nacional.

E finalmente, a encerrar o Angra Jazz 2019, outro grande músico, o impetuoso Miguel Zenón. Nascido Porto Rico, Miguel Zenón começou por estudar música clássica, tendo-se muito jovem apaixonado pela música de Charlie Parker. O seu percurso é bastante curioso. Os primeiros discos poderiam incluir-se no que se vulgarmente se designa de neo-bop, mas ele descobriu a música de Porto Rico, tendo progressivamente incluído elementos da música popular da sua terra natal, sem que se tenha afastado do Jazz. Músico vertiginoso, muito criativo, ele é uma verdadeira fera, insuperável no seu instrumento.
Miguel Zenón tem tocado em Portugal à frente dos seus grupos ou incluído noutros (e toca no mais recente disco de César Cardoso) e já tardava em Angra do Heroísmo.
Zenón vem a Angra com um disco novo na bagagem, «Sonero: The Music of Ismael Rivera» (dedicado ao famoso cantor portoriquenho Ismael Rivera), provável alinhamento do concerto (até porque a formação do disco é a mesma que se apresentará em Angra).

Antecipando o festival vários grupos têm tocado em várias salas da cidade (Angra Jazz/ Jazz na Rua), o que deverá acontecer até ao fim do festival: os Wave Jazz Ensemble, Sónia Pereira Trio e ainda o João Mortágua Quarteto, em concertos, sessões de formação e uma jam session.

Setembro de 2019