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European Jazz Conference 2018

 

A European Jazz Conference reuniu-se pela primeira vez em Portugal, promovida pela Sons da Lusofonia. Várias centenas de participantes, entre nacionais e estrangeiros, terão discutido durante três dias sobre o estado do Jazz na Europa.

A promoção da conferência em Lisboa - porventura o mais importante evento internacional de profissionais ligados ao Jazz europeu jamais ocorridos em Portugal - deveu-se ao esforço da Sons da Lusofonia (com direcção de Carlos Martins), que tem como principal empresa a organização da Festa do Jazz, encontro das escolas de Jazz nacionais, que ocorre anualmente na primavera, tendo ainda alguma promoção de concertos e edição discográfica.

Mais de cinco centenas de representantes de inúmeros países europeus terão participado em diversos debates e concertos que aconteceram no CCB e na Livraria Ler Devagar da Lx Factory, tendo a organização associado outros concertos que aconteceram em diversas salas de Lisboa.

Por razões pessoais não me foi possível estar presente em diversos dos eventos, mas gostaria ainda assim de tecer algumas considerações.
Provavelmente o painel da conferência que mais interesse tenha tido para nós tenha sido o «Portuguese Jazz in the European Context», a que infelizmente não pude assistir. 

Portugal tem poucos músicos interessantes com projecção internacional: Maria João, pois claro, e Mário Laginha; também Carlos Bica que reside e trabalha em Berlim, e a Orquestra Jazz de Matosinhos. Nos Estados Unidos alguma projecção para Sara Serpa e André Matos e na Escandinávia Susana Santos Silva. (E perdoem-me os inúmeros jovens que não nomeio, que tentam encontrar fora de portas o seu lugar no Jazz internacional.)

Se um dos principais problemas do Jazz nacional dentro de portas é encontrar público e mercado capazes de absorver a quantidade de bom Jazz que se faz actualmente, no plano internacional a situação é dramática. O Jazz nacional vive um momento de explosão, com inúmeros jovens músicos a merecer reconhecimento. Mas faltam salas, falta público, faltam promotores, também. Portugal é um país sem música, quero dizer, onde não se estuda música, onde não se promove música e onde não se consome música. Pouco público, mercado escasso; as excepções são quase sempre para pimbas e pantominices que a televisão e o poder político promove em nome da cultura. A consequência é que muitos jovens músicos têm procurado no estrangeiro as possibilidades que lhes são negadas por cá. Como é que se dá a volta a este problema? Como é que a European Jazz Conference pode ajudar o Jazz nacional a quebrar o enguiço? Nenhum painel teria a fórmula mágica para resolver o problema (até porque o problema é também internacional), mas parece-me que o painel escolhido para o debate foi no mínimo infeliz. Não tenho nada contra a presença de intervenientes de áreas alheias ao Jazz (a tal música improvisada*), mas claramente o único que teria algo de pertinente a dizer sobre Jazz terá sido Pedro Guedes (um dos directores da mais internacional das nossas grandes formações, a Orquestra Jazz de Matosinhos).

(* A «música improvisada» é uma designação infeliz – e nela poderíamos incluir o folclore do Bornéu e Bach – que alguns utilizam para descrever uma música indefinida que supostamente estaria «depois do Jazz», mas que quase sempre se revela simplesmente como uma incapacidade de tocar Jazz. Outros nomes são também «Jazz criativo» ou «Jazz livre», e os nomes vão-se sucedendo de acordo com as conveniências. )

 O convite para a mesa por parte de Carlos Martins torna-se mais estranho ainda quando ele é o responsável pelo encontro das escolas de Jazz nacionais (a Festa do Jazz) e alguns dos convidados no painel afirmam que as escolas não são necessárias ou são até nocivas.

Faltaram pelo menos duas instituições que têm tido um papel fundamental no desenvolvimento do Jazz em Portugal: o Hot Club e a Porta-Jazz (o Hot Clube de Portugal, por razões históricas óbvias, e a Porta-Jazz que é a mais importante associação de músicos nacionais, e que é também a mais activa editora de Jazz nacional [embora com uma distribuição amadora e apenas nacional]). E faltaram também responsáveis das escolas, das escolas médias e superiores, de onde têm saído alguns músicos fundamentais da cena Jazz nacional, alguns dos quais actuaram no contexto da conferência. Não procurei saber a quem foram dirigidos os convites para participar no painel, nem sei se os declinaram. É possível. Mas a meu ver o painel esteve coxo.

Mas pois, isto são apenas reflexões de quem não assistiu ao debate e, pois, talvez que eu esteja enganado e o painel tenha tido imenso interesse.  

Não assisti também aos primeiros concertos incluídos na conferência: a Orquestra Jazz de Matosinhos, o Mário Costa (que apresentou Oxy Patina no Capitólio), o Impermanence de Susana Santos Silva, o acutilante Jazz dos Bode Wilson, as Lifestories de Joana Machado (um projecto muito funky soul, também à margem, no Hot), e o Axis de João Mortágua, um dos projectos mais originais e fortes da cena nacional.

Representantes da diversidade e do elevado nível do Jazz que se pratica em Portugal, estes concertos impressionaram os conferencistas com quem falei.

Sobre os concertos a que assisti, e onde esteve patente a pobreza de algum «moderno» Jazz europeu e, pelo contrário, o elevadíssimo nível do Jazz nacional, claramente prejudicado pelo som nas duas salas onde estive:

Espen Eriksen trio with Andy Sheppard
O primeiro concerto internacional, a quem foi oferecida o Grande Auditório do CCB, o Espen Eriksen Trio com Andy Sheppard (sexta 14), não mereceu a sala. Oriundos da Noruega, o trio confirmou o que Perfectly Unhappy, o disco editado já este ano, fazia recear: música aborrecida, harmonicamente pobre, sem ideias, vulgar. Sem qualquer estímulo, nem Andy Sheppard salvou o concerto, apesar de dois solos interessantes: uma espécie de jazzinho de elevador.

Eduardo Cardinho
Incluído no «Fringe Programme» e mau grado as deficientes condições acústicas e a informalidade da sala, a Livraria Ler Devagar (pelo contrário, uma livraria singular enquanto livraria), o concerto do Eduardo Cardinho Trio (sexta 14) proporcionou um concerto interessante. Ladeado por Francisco Brito no contrabaixo, muito seguro, e a dramática bateria do jovem Diogo Alexandre, o exuberante Eduardo Cardinho convenceu sem problemas.

LUME
E apesar das condições acústicas da sala (uma pequena sala no 1.º piso da Ler Devagar, sexta 14) a LUME soube também convencer, mercê da sua música poderosa. Com as paredes demasiado próximas para permitir uma audição apropriada, a LUME impressionou os poucos elementos estrangeiros que assistiram, pela força e pela originalidade da sua música. Algumas alterações de última hora na formação (como o trompete de Jessica Pina e Vicky na bateria) revelaram-se eficientes nos propósitos de Marco Barroso.   

Pedro Melo Alves Omniae Ensemble
Incompreensivelmente também o Omniae Ensemble foi prejudicado pelo som numa sala onde não devia, o Auditório 2 do CCB, sábado 15. Deu para perceber o enorme valor do projecto do jovem baterista e compositor, mas faltou recorte no som, com os metais embrulhados, e que apagavam o piano. Perdeu-se a subtileza, e dei por mim a adivinhar (eu, que conheço a música) o que é que os músicos estavam a tocar, mas isso não teria acontecido a quem a ouvia pela primeira vez. Percebeu-se que não se tratava de «música improvisada» e que estávamos perante um trabalho sério de composição, e o seu valor foi inquestionável para todos.
Um bom concerto, apesar do som.

Quarteto de Beatriz Nunes
Bastante mais equilibrado esteve o som de Beatriz Nunes (sáb 15, Auditório 2). Oriunda da área da música tradicional portuguesa (com formação clássica e passagem pelo Jazz), Beatriz Nunes tem vindo a tocar com um grupo de Jazz, revelando inteligência musical na sua adaptação e do quarteto.
Com um repertório diversificado, que tanto se declara claramente popular (o popular «culto» dos Madredeus onde se fez notar) como avança para um canto de etimologia Jazz, Beatriz Nunes sai-se bem. Ela não é uma cantora de Jazz, mesmo se é capaz de fazer scat, por exemplo, mas se lhe aprendeu a técnica falta-lhe a emoção e a capacidade de se soltar para além das palavras decoradas, falta-lhe a capacidade para improvisar e o scat não passa de uma ladainha decorada. Pode ser que eu esteja enganado, e que ela seja um dia capaz de fechar os olhos e perder-se no palco e soltar-se. Mas não precisa, eu diria: ela denuncia já um caminho que é dela e que eu creio deveria prosseguir, mesmo fora do Jazz.
Acrescento que Beatriz Nunes possui uma boa presença de palco (que falta a muitas cantoras de Jazz, ou que tal se pretendem) e é capaz de realizar um bom espectáculo.
Resta dizer que bem esteve o grupo (Mário Franco, Luís Barrigas e Jorge Moniz), com destaque para Mário Franco a insuflar alma na música, com bons solos.

TGB
E de novo os incompreensíveis problemas de som do Auditório 2 do CCB (sáb 15). Apesar de um simples trio, o som da tuba de Sérgio Carolino esteve sempre embrulhado. Ele que é um dos solistas principais (neste grupo todos são solistas principais, e a tuba não faz o papel do tradicional baixo) esteve sempre esvaído de recorte, passando o protagonismo para o incontornável Mário Delgado ou o colorido da bateria de Alexandre Frazão.
Para quem considera o TGB um dos melhores grupos nacionais e lhe conhece a exuberância, o trio esteve bem, mas ele não pôde impressionar a audiência como deveria. Repertório novo a antecipar um novo disco.

Bugge Wesseltoft’s New Conception of Jazz
Conheci o projecto de Wesseltoft no final do século passado, e nunca lhe encontrei interesse especial na mescla pop que o definia. Vinte anos depois as suas limitações cresceram na sala nobre do CCB.
Apresentada como uma banda de predominância feminina, afinal revelou um papel feminino praticamente decorativo, a par do exibicionismo fútil (hum, haverá exibicionismo criativo?) por parte do mestre envolvo em teclados, sem que demonstrasse saber tomar partido de algum. Um pouco de música aqui e ali a interromper o aborrecimento da fórmula, muitos efeitos, electrónica soft, música adequada para ouvir baixinho enquanto se bebe um copo. (sábado 15)

Rodrigo Amado Trio
O concerto do Rodrigo Amado Trio no espaço da Ler Devagar foi o que se esperava do tal «Jazz Criativo» ou da «Música Improvisada». Como atrás disse, o espaço da livraria não tem condições para concertos, mas de facto também não teria importância em qualquer outro local. Rodrigo Amado tinha 45 metros de concerto para tocar e assim desfiou efeito atrás de efeito, habilidade atrás de habilidade. Ele não procura qualquer consistência harmónica ou estrutura rítmica, é sabido, e poder-se-ia querer utilizar uma outra perspectiva para observar a sua música. Mas dado que ele se reivindica do Jazz, qualquer tipo de Jazz que se pretenda, qualquer músico de Jazz observará de imediato que Rodrigo Amado não OUVE os seus companheiros, e essa é, como se sabe, uma boa medida para avaliar das capacidades de um músico de Jazz. Do que é do exterior é dado observar, ele continuaria a tocar se os seus companheiros fossem embora ou fossem substituídos. Ele apenas reage a alterações de velocidade ou volume.
Rodrigo Amado parece focar todo o seu interesse na exploração do instrumento, nos seus limites, mas é vácuo em recursos formais, em elementos musicais de qualquer tipo, folclóricos, eruditos, clássicos, rock ou Jazz, de qualquer tipo. Diria que ele procura a dissonância absoluta, e aí residirá todo o seu mérito. A dissonância é um conceito escorregadio, mas torna-se óbvio que ele não procura construir harmonias de qualquer tipo, mas tão somente debitar sons. O facto de ele pura e simplesmente não ouvir os seus companheiros acentua a sua inópia.    
Eu creio que Rodrigo Amado deve ser observado com atenção pelos jovens músicos de Jazz, sobre o que eles NÃO devem fazer. Deixem-me citar alguém em que é (foi) uma autoridade para RA, Jorge Lima Barreto: «não há músicos de Jazz surdos» (Revolução do Jazz). O que Rodrigo Amado realizou na Ler Devagar foi um concerto de surdos. O concerto de Charlie Haden com Carlos Paredes foi um concerto falhado porque Paredes era um músico surdo ao universo exterior. Pelo contrário em Free Jazz de Ornete Coleman todos os oito músicos, o quarteto duplo, se estavam a ouvir, e isso autorizou a que Free Jazz seja um disco histórico.

André Fernandes’ Centauri
Definitivamente prejudicado pela sala – a mesma sala onde a LUME tinha tocado na noite anterior, na Ler Devagar -, a que acresceu o cansaço da audiência depois de três dias de concertos e conferências, o Centauri conseguiu, apesar de tudo, sobreviver.
Centauri é um dos projectos mais rock de Fernandes, com referências curiosas ao rock progressivo. Fernandes é um músico criativo e a sua banda é composta de cinco músicos de excepção: voluptuoso Mortágua, assertivo José Pedro Coelho, rigoroso Brito, vulcânico Pereira, engenhoso Fernandes. O seu último trabalho, que tem vindo a tocar, rebelde à ortodoxia Jazz (mesmo se a marca da sua escrita lá permanece), é também um dos seus mais conseguidos de sempre. Mas as paredes da sala, que lhe devolviam o som, e o parco e esgotado público, não lhe permitiram demonstrar as virtudes do projecto condignamente, mesmo se, repetindo, o Centauri tenha logrado, ainda assim, sobreviver.    

Conheço todos os grupos e músicos de Jazz portugueses que foram convidados para tocar na Conferência, e já lhes vi concertos bem mais conseguidos. Claramente eles foram prejudicados pelo som ou pelas circunstâncias, e apesar de tudo eles impuseram-se perante os internacionais. E não tenho dúvidas que o mesmo deverá ter acontecido com aqueles a que não assisti, a Orquestra Jazz de Matosinhos, o Bode Wilson, Mário Costa, o Impermanence de Susana Santos Silva, Joana Machado ou o Axes. Com a evidência também da sua diversidade, dos inúmeros trilhos que o Jazz nacional percorre e da sua riqueza.     

 

European Jazz Conference:
Organização: Sons da Lusofonia/ CCB/ European Jazz Network

Centro Cultural de Belém, 13 a 16 de Setembro de 2018

(Este texto não foi publicado na altura devido a um link perdido. As minhas desculpas)

Leonel Santos