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Festival de Jazz de Lisboa 2019

 

Com produção e direcção do Teatro São Luiz e do Hot Club de Portugal, o primeiro festival de Jazz de Lisboa anuncia-se com uma programação nacional / internacional que se justifica já, dado elevado nível do Jazz nacional. E se as expectativas nem sempre se concretizaram, eu diria que o modelo pode e deve ser repetido, explorado e melhorado.

Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal convida John Hollenbeck
Um dos concertos mais aguardados, a «Orquestra do Hot Club de Portugal convida John Hollenbeck» não resultou no que seria expectável. A música de Hollenbeck, que percorreu uma parte substancial da sua obra para grande formação (o Large Ensemble, que projectou o nome de Hollenbeck), resultou num concerto desigual. A orquestra parecia recear a pauta e o estímulo do director não lhe chegava. A primeira parte, que se completou com o «Eternal Interlude», perdeu-se num marasmo de vulgaridade, tendo-se dissipado o detalhe onde reside uma boa parte da riqueza da música do compositor. (E diria que os problemas começaram até no som da sala, que deixava o som da orquestra do palco, quando deveria estar no meio da sala.)
Algo mudou quando Hollenbeck se sentou na bateria e Luís Cunha assumiu a direcção. A bateria é o instrumento de Hollenbeck, como se torma óbvio na construção dos temas, que possuem sempre uma densa e faustosa estrutura rítmica, polirritmias que se suportam no virtuosismo próprio, construções e desconstruções, mudanças de acentuação, um swing que se insinua, mais do que é possível observar. E talvez pela direcção de Cunha ou talvez que pela maior preparação, as peças que se seguiram a The Blessing trouxeram enfim ao São Luiz algum do John Hollenbeck que fizeram dele um dos mais notáveis compositores da actualidade, com também uma resposta mais eficaz da orquestra.

Sexteto de Bernardo Moreira «Entre Paredes – A música de Carlos Paredes»
A homenagem de Bernardo Moreira ao ícone da guitarra portuguesa Carlos Paredes também ficou aquém do expectável. Moreira revisitava a Paredes (Ao Paredes Confesso, 2002), mas em grande medida a música ficou-se pelo preito. Diria que onde se tornava necessário reinventar, Moreira se ficou pela colagem excessiva ao melodismo contagioso do guitarrista. Músicos competentes, sempre, mas tão só (uma – não - presença de Mário Delgado confrangedora), e as mais insignes excepções estiveram nas mãos do jovem Tomás Marques que fez o solo da noite.

João Barradas com Mark Turner «Portrait»
O segundo dia do Festival de Jazz de Lisboa cumpriu-se sem que a emoção tivesse chegado ao palco do São Luiz. Barradas combina neste novo grupo motivos dos seus dois grupos anteriores, o trio (acordeão-baixo e bateria) de Home e o eixo acordeão-vibrafone de Directions, sendo ainda assim óbvia a proximidade de Home (um trio mais convidados). Música suportada pelo virtuosismo de Barradas, impondo, reinventando o acordeão como instrumento de Jazz, com limitações que Barradas procura superar com o midi, esbatendo as fronteiras entre géneros. Mas faltou novidade, e escrita, e emoção, e a substituição dos músicos pouco de novo trouxe, e mesmo Mark Turner – ele que é um dos saxofonistas de proa da actualidade - se limitou a cumprir os serviços mínimos, de pouco se justificando (para além do nome) a sua presença.

Filipe Raposo «Ocre»
Filipe Raposo tem-se feito notar pela diversidade, no trabalho desenvolvido em diversas áreas, na composição de bandas sonoras para filmes ou no acompanhamento de filmes mudos, bandas sonoras para teatro, instalações, como pianista de cantores de áreas musicais diversas, ou como músico de Jazz, actuando e gravando a solo ou em grupo. Ocre é o quinto disco editado em seu nome.
A apresentação confirmou o intimismo da sua música, e a procura de motivos que esclareçam a abstracção. Simbolismo, cores, filosofia, história, literatura, diria que de forma algo hiperbólica. Ocre pretende-se o primeiro volume de uma trilogia dedicada às cores primárias, «essenciais», a que se seguirão o preto e o branco. Cada tema foi enfaticamente anunciado, muito de acordo com a ambição do projecto, sendo que a música não se revelou estimulante o necessário. Excessivamente melodiosa e contida, ficou-se bastante pela ambição, e creio que Raposo poderá fazer bastante melhor. A exigir uma audição do disco.

Coreto «Analog»
Já escrevi sobre o disco, que votei como o melhor CD nacional de 2017, e faltava confirmar ao vivo o que o disco antecipava. «Dodecateto composto de alguns dos melhores músicos de Jazz nacionais … da fortíssima escola do norte … este seu quarto disco é um verdadeiro monumento, onde a autoridade composicional e a erudição de João Pedro Brandão se revela de forma definitiva: colectivo democrático, onde todos intervêm, o Coreto teve neste quarto disco, de novo, a direcção, e a escrita, do saxofonista.», «Modernidade, erudição, engenho, sem pontos fracos, música cheia, séria, convicta, sem hesitações e sem concessões … exemplo maior da seriedade e maioridade da música que se faz em Portugal…».
Tão sério ao vivo quanto em disco, e mais não digo.

Jeff Williams «Lifelike»  
O veterano Jeff Williams realizou o outro grande concerto do festival. Jazz duro e sem concessões, não poucas vezes me sugeriu o que no meio dos anos 60 se chamava (antes do «Free Jazz» de Ornette) de New Thing. Música no fio da navalha, angulosa e estimulante, com a energia do hard bop e a verdade do Jazz nos punhos, Jeff Williams é um músico que merecia outro reconhecimento. À frente de um quinteto «clássico» sem instrumento harmónico, a dureza da música expunha os solistas, os saxofones (John O’Gallagher e Josh Arcoleo) e o trompete (Gonçalo Marques), suportados por uma secção rítmica consistente.
Excelentes prestações de um quinteto de músicos de primeiro plano, a demonstrar também a autoridade da liderança, no concerto mais clássico (apesar de tudo) do festival, mas de onde a vulgaridade esteve sempre arredada.

João Lencastre’s Communion
O Communion de Lencastre na sua versão 2019 apresentou-se como um octeto, mesmo se se apresentava por vezes como um duplo quarteto ou um duplo trio, onde a pressão rítmica e a electricidade estiveram em evidência. O Communion pratica uma música que descende do Jazz de fusão e namora o jazz pop, mas que nesta fórmula nem sempre acompanhou a ambição. A pecha maior residiu talvez em João Paulo, remetido para um piano claramente deslocado do ambiente eléctrico, mas também em Branco que se limitou quase sempre a uma sucessão de efeitos sobre efeitos (por muito espectaculares que se apresentem, até no dramatismo) e nos arranjos entre «os grupos», que pecaram pela ausência de entrosamento. Eu creio que o grupo tem «pernas para andar» e a música teve muitos momentos interessantes, como é interessante a fórmula, mas ela necessita claramente de trabalho. Os solos da noite estiveram a cargo dos suspeitos do costume, o impressionante (criativo e consistente) André Fernandes, e o inspirado Ricardo Toscano, com prestações interessantes de todos (à excepção do referido João Paulo, que deveria ser substituído por um instrumento eléctrico).

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O primeiro (renascido) Festival de Jazz de Lisboa terminou. Espera-se que continue. Lisboa necessita de um festival de Jazz digno da capital que é. Um festival de Jazz internacional que contemple a fervilhante cena Jazz nacional, e que seja capaz de colocar Lisboa no roteiro do Jazz internacional. Lisboa tem o histórico Hot Club, é claro, com programação regular quase quatro noites por semana todo o ano, mas quase sempre nacional, e sujeita às constrições da exígua sala. É mais fácil ouvir os grandes nomes do Jazz internacional em Guimarães, Angra do Heroísmo, Funchal, mesmo no Porto (que também já não tem festival), e por vezes no Seixal, em Espinho ou na Gulbenkian (ok, a Gulbenkian é em Lisboa), do que em Lisboa. Não se fazem omeletas sem ovos, e eu diria que é necessário mais investimento e mais ambição. O público ainda não corresponde, mas os poucos exemplos que existem demonstram que ele pode existir, se o trabalho for sério (persistência, investimento na promoção, programação ambiciosa e sábia). Nacionalmente há também o problema dos programadores, onde impera o modismo e a modernite. Há centenas de grandes músicos que nunca vieram a Lisboa (e a Portugal também) e há músicos que vêm todos os anos, várias vezes, repetidamente (e há músicos que não ganham os primeiros lugares das votações internacionais e que merecem ser ouvidos e conhecidos).
Uma nota sobre as bandas. Eu já falei: alguns músicos estiveram abaixo das expectativas que sobre eles eram colocadas, até porque são os melhores. Creio que eles foram penalizados pela impreparação, pela necessidade de apresentar projectos que ainda não estavam amadurecidos, e isso começa a ser recorrente. O facto de eles serem projectos «conceptuais» traz à evidência a precocidade. Não se pode viver só do nome e não se pode ir experimentar para o palco, embora para muitos músicos isso se tenha tornado hábito ou mesmo método, o que acaba por malbaratar boas ideias que nunca são conseguidas (sendo certo que para muitos o efémero parece ter-se tornado ele mesmo um valor). Hoje é fácil gravar e com tantos músicos bons, cai-se no excesso. Um tempo de maturação seria desejável, em minha opinião.
A programação do Festival de Jazz de Lisboa esteve a cargo do Hot Clube de Portugal. Do São Luiz, da Câmara de Lisboa e do Hot Clube espera-se mais e melhor.    
O Festival de Jazz de Lisboa 2019 terminou. Longa vida ao Festival de Jazz de Lisboa.

 

Leonel Santos

 

Qua 27
Março
Lisboa
Teatro São Luiz
21.00
Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal convida John Hollenbeck John Hollenbeck (dir, comp)
Qui 28
Lisboa
Teatro São Luiz
21.00
Sexteto de Bernardo Moreira
«Entre Paredes – A música de Carlos Paredes»
Tomás Marques (sa), Ricardo Dias (p), Mário Delgado (g), Bernardo Moreira (ctb), Joel Silva (bat)
22.30
João Barradas com Mark Turner «Portrait» João Barradas (aco, aco-sint), Simon Moullier (vib), Luca Alemanno (ctb), Naíma Acuña (bat), Mark Turner (st)
Sex 29
Lisboa
Teatro São Luiz
21.00
Filipe Raposo
«Ocre»
Filipe Raposo (o)
22.30
Coreto
«Analog»
João Pedro Brandão (sa, f), José Pedro Coelho (st), Hugo Ciríaco (st), Rui Teixeira (sb), Ricardo Formoso (t), Susana Santos Silva (t), Andreia Santos (trb), Hugo Caldeira (trb), AP (g), Hugo Raro (p), José Carlos Barbosa (ctb), José Marrucho (bat)
Sáb 30
Lisboa
Teatro São Luiz
16.00
Big Band Júnior Com Inês Laginha
«O Jazz também é para ti)
Claus Nymark (dir), Inês Laginha (comentários), Alexandra Ávila Trindade (dir), João Godinho (dir), Miguel Morais (cl), Frederico Araújo (cl), Inês Miranda (voz; oboé), Clara Sprung (s), Manuel Magalhães (s), Sofia Valentim (s), Ricardo Neto (s), Álvaro Pinto (s), Patrícia Ferreira (t), André Silvestre (t), Henrique Pinto (t), Rafael Ferreira (t), Pedro Moreira (trb), Alice Serra (aco), Zé Cavaco (p), Inês Ferreira (p), Duarte Carvalho (g), Vicente Magalhães (b), Tomás Almeida (bat)
21.00
Jeff Williams
«Lifelike»
John O’Gallagher (sa), Josh Arcoleo (st), Gonçalo Marques (t), Sam Lasserson (ctb), Jeff Williams (bat)
22.30
João Lencastre’s Communion Ricardo Toscano (sa), Albert Cirera ((st, ss), João Paulo Esteves da Silva (p), André Fernandes (g), Pedro Branco (g), Nelson Cascais (ctb), João Hasselberg (b-el, elec), João Lencastre (bateria, elec, sint, comp)
Lisboa
Hot Club
23.00
jam session João Carreiro (g), Hugo Antunes (ctb), Luís Candeias (bat)