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Festival de Jazz do Valado dos Frades 2019

 

O Valado Jazz tinha-se antecipado no meio de Maio com concertos da Dixienaza Jazz Band, uma banda de dixieland da Nazaré, nas ruas de Leiria e da Nazaré, o trio de Daniel Bernardes, Joel Silva e Ricardo Toscano no Museu de Leiria, e ainda os jovens J. Bird Person no Sítio da Nazaré.
Mas a programação «nobre» esteve, como sempre, reservada para a Biblioteca de Instrução e Recreio do Valado dos Frades (BIR) a sala onde o festival nasceu (uma associação do século XIX que não desmente as origens maçónicas - um símbolo com três fachos e um lema: Luz Sempre Luz), já no final de Maio, prolongando-se para a segunda semana de Junho. A primeira semana contou com Marta Hugon, Pedro Nobre «E depois» e Bernardo Moreira «Entre Paredes». Só assisti à segunda semana do festival

6teto Mário Santos Bloco A6
O «Bloco A6» do sexteto de Mário Santos é o projecto alargado do saxofonista (que começou há anos por ser o A4 e depois A5) com dois saxofones, um trompete e secção rítmica com a guitarra de Miguel Moreira. Acusando a pouca rodagem do grupo, o concerto foi crescendo em intensidade, impondo a competência dos músicos ao serviço de temas bem construídos, numa noite (quinta-feira) de menor afluência de público (um pouco mais de duzentas orelhas), mas onde não houve lugar para remorsos. Uma secção rítmica imaculada e arrebatada - Aguiar e Cavaleiro, com Miguel Moreira a fazer a ponte para as composições e impondo-se pela irreverência e consistência, também como solista, onde a electricidade oferecia uma configuração mais pop ao grupo; e uma frente de sopros poderosa, um trompete/  fliscórnio, Ricardo Formoso (mais acutilante no trompete, também pela sonoridade do instrumento, mais contido no fliscórnio), e o portentoso João Guimarães e o líder Mário Santos nos saxofones. Destaque talvez, pela espectacularidade, para a guitarra de Miguel Moreira e o saxofone alto de João Guimarães.
Banda coesa, Jazz à solta, numa grande noite

Eduardo Cardinho «In Search of The Light»
In Search of the Light apresentou-se no Valado sem o quarteto de cordas e a electrónica de Igor Silva que o completam no disco, mas nem por isso deixou de realizar um bom concerto.
É claro que Eduardo Cardinho investiu na composição, mas se denotou algum trabalho e engenho, este é um grupo que se evidencia em palco, graças em grande medida às suas qualidades como improvador e à simbiose que possui com Barradas, a par da força da secção rítmica. Cardinho e Barradas são dois companheiros de estrada e a música que Cardinho compõe conta amiúde com o jovem acordeão. Neste projecto Barradas toca exclusivamente o acordeão midi, que funciona com frequência como um órgão, o que se me afigurou uma opção acertada.
O quinteto base completa-se com a secção rítmica impoluta de Bruno Pedroso e André Rosinha, dois músicos com quem se pode sempre contar, e o saxofone de Ben Van Gelder, que no Valado se revelou um pouco menos enquadrado no grupo, acabando por se revelar o elemento fraco do grupo.
Com a sala a abarrotar de um público generoso, a generosidade e energia saltaram para a frente, contribuindo decisivamente para o calor da noite.

Carlos Bica
Diz a Lei de Murphy que quando alguma coisa pode correr mal ela irá correr mal no pior do momento. Ora pois em Valado dos Frades a Lei de Murphy não se aplica: mesmo quando alguma coisa tem tudo para correr mal, ela corre bem. Foi o que aconteceu no concerto de encerramento do Festival de Jazz do Valado dos Frades 2019 quando a líder do Move String Quartet adoeceu subitamente. O problema é que o Move String Quarteto – onde tocava Carlos Bica - não é um grupo de Jazz, mas um quarteto de cordas onde dois dos músicos não são músicos de Jazz e o repertório consta basicamente de composições escritas sobre que alguns dos músicos improvisam. Ou qualquer coisa como isto, tal como me foi descrito, porque eu não conheço (eles terão tocado na noite anterior no Hot Club).
Mas então na sexta à noite não havia concerto previsto para sábado. E apenas à meia noite se soube que Carlos Bica tinha encontrado uma solução precária.
Sábado por volta das três da tarde os músicos chegaram: com Carlos Bica vinha Alexandre Frazão, João Barradas (que tinha tocado na noite anterior com Eduardo Cardinho), a violista Marie-Teres Hartel e a violinista Heloise Lefebvre. E entre as três da tarde e as dez da noite, com intervalo apenas para jantar, o que os cinco músicos fizeram foi ensaiar o repertório antigo do Bica. E correu bem. Talvez pelo dramatismo acrescido do conhecimento do acidente, também pela música contagiosa de Carlos Bica, e com certeza pela excelência dos músicos, o concerto correu muito bem, com o público a não se esquivar aos aplausos.
A música de Carlos Bica não é complicada. Ela baseia-se em harmonias relativamente simples, muito luminosas, diria, mas a composição é sempre composta como um todo, onde reside a complexidade. Com frequência criar coisas simples é realmente o mais difícil, e Carlos Bica é um mestre nessa arte. Um músico pop disfarçado de músico de Jazz, ironizei eu há mais de vinte anos, e essa personalidade não se dissolveu até hoje. Os temas de Carlos Bica são capazes de ficar no ouvido, mas a forma como elas são tocadas são outro tanto do dramatismo que ele sabe transmitir como ninguém. Dramatismo, alegria, rigor, movimento, vida, uma imaginação melódica invulgar, dir-se-iam canções sem palavras, tal é a música de Carlos Bica. Inteligência também, na escolha dos músicos, ele que reuniu um dos maiores bateristas do planeta, Jim Black, e um guitarrista singular, Frank Mobus, na constituição do Azul, mas também, no passado, na escolha da voz da actriz Ana Brandão, ou mais recentemente com os jovens João Mortágua, André Santos ou João Barradas.
Regressando ao Valado: superando os constrangimentos do inesperado, com quatro músicos que não conheciam as suas composições, e ainda uma violista que vinha da música clássica (Hartel), e uma outra (Lefebvre), com quem nunca sequer tinha tocado para além do contexto do repertório do quarteto de cordas (mesmo se ela tinha tido aulas de violino com Didier Lockwood), Bica foi capaz de realizar um excelente concerto. Algumas dificuldades foram sendo superadas ao vivo, mas que se diriam invisíveis numa audição simples. O veterano Frazão «apanha as coisas do ar», e é um baterista sempre espectacular, mas o jovem João Barradas dir-se-ia estar a tocar a sua música, preferindo o acordeão acústico ao midi que tinha tocado no dia anterior, e se Lefebvre foi uma valia acrescida à música de Bica, foi muito interessante ver Hartel, a quem Bica acometeu por diversas vezes a arquitectura da melodia, a ensaiar alguns passos de improvisação.
Um encerramento memorável do Festival de Jazz do Valado dos Frades 2019.

(Fica escrito, porque foi anunciado publicamente pelo director do festival no entusiamo do final do concerto, no próximo ano o Trio Azul de Carlos Bica vem ao Valado.)

Festival de Jazz do Valado dos Frades
Director: Adelino Mota

 

Leonel Santos