(9) Jazz Moderno

Saído mesmo em cima do 25 de Abril de 1974, Jazz Moderno é uma compilação de textos de vários autores, que poderíamos incluir no capítulo das biografias, mesmo se é uma verdadeira enciclopédia do Jazz «moderno», entre o bop e o free, tradução de um livro editado em França na Casterman, que tinha um outro volume dedicado ao Jazz clássico, anunciado, mas que nunca chegou a ser editado em Portugal.

Os músicos tratados revelam o propósito do livro, entre Roy Eldridge e Dizzy Gillespie e o free-jazz, com Cecil Taylor, Ornette Coleman, Eric Dolphy, Don Cherry e Pharaoh Sanders. Pelo meio, Miles Davis, Charlie Parker, John Coltrane, Gil Evans, Woody Herman…

Quase trezentas páginas de formato caderno, duas a quatro páginas para cada músico, por vezes agrupados: «Trompetistas Modernos» (Clark Terry, Kenny Dorham, Chet Baker, Fats Navarro, Lee Morgan…), «Saxofonistas Tenores Modernos» (Frank Wess, Eddie Lookjaw Davis, Lucky Thomson, Gene Ammons, Sonny Stitt, Dexter Gordon, Wayne Shorter e Joe Henderson, entre outros), «O Piano de Bud Powell a Ahmad Jamal» e «O Piano de Ahamad Jamal a Cecil Taylor», «Arranjadores Modernos», «Pequenas e Médias Formações Modernas («Os Quintetos», «As Médias Formações», «Os Quartetos», «Os Trios», onde se debruça sobre vários grupos deste tipo de formações, de Fats Navarro aos Jazz Messengers de Art Blakey, aos grupos de Clifford Brown/ Max Roach e de Booker Little/ Eric Dolphy, Stan Getz/ Bob Brookmeyer, Lennie Tristano, o «Tentet» de Gerry Mulligan, John Coltrane/ Pharoah Sanders, Archie Shepp com Bobby Hutcherson, o Charles Lloyd de Florest Flower, o Modern Jazz Quartet, ou o trio de Free Fall de Jimmy Giuffre.), «Instrumentos Diversos nos Modernos» (com destaque para o clarinete, o saxofone soprano, a flauta e o violino); Jazz Moderno percorre trinta anos e várias centenas de músicos e referências discográficas, num tratamento bastante técnico-histórico, sempre sério e informado.

Técnico/ musical/ histórico, os autores são alguns dos nomes grandes da crítica e divulgação, e mesmo músicos, europeus, dos anos 60 e 70, com direcção de Henri Renaud e textos de Alain Gerber, André Hodeir, Philippe Carles, Michel Savy e François-René Cristiani.

A matriz da crítica europeia é evidente, sintética dentro do que é permitido no curto espaço dedicado a cada músico, procurando enquadrá-lo musicalmente e historicamente (e biograficamente), sem deixar de lhe oferecer o enquadramento social e político, sempre que pertinente, como se conhece da crítica contundente que foi de Gerber, Hodeir e Carles.

Exaustivamente, os nomes tratados em capítulos independentes:
Roy Eldridge, Dizzy Gillespie, Fats Navarro, Miles Davis, Clifford Brown, Lester Young, Stan Getz, Sonny Rollins, John Coltrane, Charlie Christian, Charlie Parker, Lee Konitz, Nat King Cole, Thelonious Monk, Bud Powell, Erroll Garner, John Lewis, Lennie Tristano, Oscar Peterson, Horace Silver, Ahmad Jamal, Bill Evans, Jay Jay Johnson, Tadd Dameron, Gil Evans, Woody Herman, Milt Jackson, Sarah Vaughan, Ray Charles, Charlie Mingus, Ornette Coleman, Don Cherry, Eric Dolphy, Cecil Taylor, Pharoah Sanders; e ainda inúmeros outros agrupados, como atrás referi, em capítulos dedicados a grupos de instrumentistas, em torno de trompete, saxofone tenor, guitarra, saxofone alto, piano, trombone, arranjo, orquestra, pequenas e medias formações, saxofone barítono, vibrafone, orgão, voz, percussão, contrabaixo, clarinete, o saxofone soprano, a flauta e o violino; e um capítulo final dedicado ao free-jazz.

Note-se que a edição francesa de Jazz Moderne datava de 1971, e se muito da história do free-jazz estava ainda por acontecer, e haveria ainda por ser escrita, a inovação que ele tinha protagonizado estava praticamente concluída. Mas a meia dúzia de nomes que são referidos, de Ornette Coleman a Cecil Taylor são manifestamente insuficientes, ou mesmo a herança desses Coltrane ou Ornette, ou Paul Bley, ou Carla Bley, ou o Art Ensemble of Chicago, ou Anthony Braxton (nem sequer referido), ou Don Cherry, ou Sun Ra estão ausentes da importância que eles possuem no Jazz que haveria de vir. Mas enfim, nem mesmo o que Miles fez com Bitches Brew parece ter sido compreendido.

Jazz Moderno é um livro sobre o Jazz moderno, terá sido fundamental para muitos de nós que começámos a ouvir Jazz pelos anos 70 (como foi o meu caso), e permanece uma referência indispensável para quem se interessa de alguma forma pelo período glorioso do modernismo no Jazz.