Publicado em All Jazz 7
Abril de 2003

 

 

Mário Laginha

Mário Laginha foi a nossa vítima deste número.
Ou teremos sido nós? Laginha confirmou-se como o mais atento dos ouvintes, quase sempre certeiro, sempre pertinente nos comentários.


Art Tatum
I Wish I Were Twins
do álbum Art Tatum, Masters of Jazz, 1935
Art Tatum, piano

Eu acho que só há um que pode tocar assim. Este disco eu não conheço, mas parece-me o Art Tatum. Eu normalmente não sou fã da ideia do virtuosismo por si só, mas nele era tão fluente o virtuosismo... É impressionante. Eu sei que o Arthur Rubinstein quando o ouviu tocar pela primeira vez não acreditava que fosse possível. Havia aquela ideia que os virtuosos eram os da clássica. Ainda por cima há um pormenor: é que ele toca à mesma velocidade ou mais que pessoas que tocam notas simples, em terceiras, em sextas, em quintas. Era impressionante, aliás ele está a fazer isso.
Foi o mais virtuoso de todos os tempos no Jazz. O que na época, naquela linguagem, fazia sentido.

 

McCoy Tyner
Passion Dance
do CD “The Real McCoy”, Blue Note, 1967
McCoy Tyner, piano
Joe Henderson, sax tenor
Ron Carter, contrabaixo
Elvin Jones, bateria

Por incrível que pareça, eu não tenho nenhum disco dele. Acho que só pode ser o McCoy Tyner. Se não é o McCoy Tyner, foi influenciado por ele, com certeza. Ah! É mesmo o McCoy Tyner... O tipo de quintas... é uma coisa tipicamente do McCoy Tyner.
A minha dúvida... eles são muito diferentes, mas... bom tive de o ouvir solar para confirmar. Por momentos tive dúvidas, porque poderia ser o Herbie (Hancock). Mas há uma fluidez no Herbie que o McCoy Tyner não tem. Principalmente no modo como pontua com a mão esquerda, que eu acho que é mais subtil. Mas é bestial!
Acho que o McCoy que eu gosto mais, ainda é desta época. Com o Elvin Jones...
É um pianista com uma certa crueza, mas muito intenso, muito forte. Houve uma época em que eu ouvia bastante.
Bom, isto está-me a correr bem, 2-0!

 

Randy Weston
African Village Bedford- Stuyvesant 2
do álbum “The Spirit Of Our Ancestors”, Verve, 1991
Randy Weston, piano
Idrees Sulieman, trompete
Benny Powell, trombone
Talib Kibwe, Dewey Redman, Billy Harper, saxophones
Alex Blake, Jamil Nasser, contrabaixo
Idris Muhammad, bateria
Big Black, Azzedin Weston, percussão

Isto já não é quem eu tinha posto a hipótese...
Eu acho que é mesmo um pianista que eu não conheço. Ao princípio quando ouvi umas coisas meio atonais ainda pensei que pudesse ser o Cecil Taylor. Mas o Cecil Taylor nunca entra neste tipo de coisas tão “dentro”. Pelo menos que eu conheça...
Depois pensei num músico mais europeu. Aquele francês muito virtuoso... o Solal, mas não consegue estar tempo a tocar tão poucas notas. O Solal tem de tocar mais notas.
É europeu ou americano? Americano? Não estou a ver...
(depois de saber)
Randy Weston? Pois, mal conheço. É um pianista que sempre me passou um pouco ao lado. Acho que é um tipo muito alto... Sei que tem uma grande ligação a África. Mal conheço... Não tenho nenhum disco.
Achei alguma graça. No tema que puseram nem era muito clara a onda africana...

 

Chano Domínguez
Bye Ya
do disco “Iman”, Nuba, 1999
Chano Domínguez – piano
Rubén Dantas – percussão
Guillermo McGill – bateria
Joaquim Grilo - palmas

(15 segundos) Este estou com sorte, porque eu toquei em Sevilha há duas semanas, no dia a seguir a ele. Depois os ouvidos ou reconhecem ou não reconhecem ... É o Chano Domínguez. É bestial. E a secção rítmica. Aquilo balançava!
O Chano fez uma coisa muito inteligente e que é fundamental e que é descobrir um caminho para si. Eu lembro-me de estar com ele uma vez em Itália numa jam, mas na altura não me chamou muita atenção. Não sei o que é que ele terá pensado de mim (ri-se). Mais tarde ouvi-o a começar a tocar coisas com um toque espanhol e comecei a achar que era muito interessante, era um caminho! Agora gostei imenso. Eu vi-o em Sevilha e gostei imenso. Era um sexteto com piano, baixo; depois a secção rítmica basicamente era tudo o resto: bateria, carron - um tipo só que tocava descomunalmente -, um que cantava e batia palmas e um bailarino que também batia palmas. Aqueles quatro, quando começavam... todos eles, mas aquele lado de percussão era fantástico. Gostei imenso.

 

Count Basie
Sandman
Do CD “Kansas City 3, For The Second Time”, Pablo/ OJC, 1975
Count Basie, piano
Ray Brown, contrabaixo
Louis Bellson, bateria

(15 segundos) É o Count Basie.
Sim?
O Count Basie, reconhece-se imediatamente, porque era o económico. Era o pianista mais económico da História. Usa-se muito o termo “relação preço-qualidade” e ele era a relação economia-efeito; com poucas notas conseguia dizer tudo. Mesmo em trio, sempre económico.

Stéphan Oliva/ François Raulin
Down The Line/ Line Up
Do disco “Tristano”, émouvance, 1999
Stéphan Oliva, François Raulin – piano

São dois pianos!
Este som não me é estranho...
De certeza absoluta, não tem muito a ver harmonicamente, mas este pianista ouviu imenso Lennie Tristano. De certeza absoluta. Tem o mesmo fraseado, só que muito mais atonal que o Lennie Tristano. Mas ele ouviu Tristano, de certeza. Eu sei que não pode ser.
Desisto. Acho bestial. Acho que isto é recente.
(depois de ver o disco)
Ah, estes dois franceses! Eu tenho um disco do François Raulin, e acho que era por aí que eu estava a reconhecer o piano. Mas não ia lá.
Ah! Tristano! Claro! É um disco sobre o Tristano! Claro que eles ouviram o Tristano! Não conheço este disco!
Eu nunca tinha ouvido este duo. Mas lembro-me de ter um dia estado à conversa com o François Raulin. E ele tinha-me dado um disco dele, que era um disco mais difícil que este, um disco muito atonal. Este disco, não conhecia, gostei imenso.

Joe Henderson
Mirror, Mirror
do disco “mirrormirror”, EPM, 1980/ 1992
Joe Henderson – saxofone tenor
Chick Corea – piano
Ron Carter- contrabaixo
Billy Higgins - bateria

Acho que é o Chick Corea, embora ele toque por vezes muito diferente.
O saxofonista não sei quem é. É um disco muito antigo?
Ah, sempre é o Chick Corea?
O saxofonista não sei. Sei que ouviu Coltrane, mas quem é que não ouviu Coltrane?
Ah, Joe Henderson! Não iria reconhecer. Devo ter talvez um disco dele. É bestial. E é o Chick Corea, agora sem dúvida.
Eu não conhecia este disco. Por acaso, devo dizer que sempre que ouvi o Joe Henderson gostei. O Chick Corea, conheço bem. É um pianista com quem eu às vezes falo, porque nos cruzamos e até nos correspondemos por email. Ele gosta do que eu escrevo. O que me põe vaidoso...

Jean-Michel Pilc
So What
do disco “Welcome Home”, Dreyfus, 2002
Jean-Michel Pilc – piano
Francois Moutin – baixo
Ari Hoenig – bateria

Isto é bastante moderno. A matriz, ainda assim, é o Herbie. Mas depois tem qualquer coisa de Cecil Taylor. Nem sei se já ouvi. É o tipo de coisas que só conhecendo o disco.
O pianista é um virtuoso. Eu não ouvi o disco todo. Se se mantiver assim, cansar-me-ia. Mas tem força...
À partida, eu não morro de amores. Mesmo numa linguagem muito moderna, gosto de sentir um fio condutor melódico. Aqui há muito um efeito, outro efeito, outro efeito, que é uma coisa que tem graça, mas que a mim, ao fim de algum tempo, se ele abusar disso, cansa.
Mas é um pianista que toca! Sem dúvida alguma!
(depois de ver)
Jean-Michel Pilc ? Não conheço de todo.

 

Giorgio Gaslini Ensemble Mobile
Billy Goat Stomp
do CD “Jelly’s Back In Town”, Irec, 1996
Ensemble Mobile dirigido por Giorgio Gaslini
(17 membros)
e ainda
Paolo Fresu – trompa
Tino Tracanna – saxofones
Gianluigi Trovesi – Sax alto, clarinete baixo

Não faço ideia do que seja.
(depois de saber)
Giorgio Gaslini? Já ouvi falar, mas não conheço. Conheço a Instabile, mas mal.


Keith Jarrett
Bye Bye Blackbird
do album “Bye Bye Blackbird”, ECM, 1993
Keith Jarrett – piano
Gary Peacock – contrabaixo
Jack DeJohnette – bateria

(10 segundos)
É o Jarrett. O Jarrett é dos maiores pianistas de Jazz de sempre. Aliás, não só de Jazz. É realmente um dos maiores pianistas de todos os tempos. É pena cantar tão alto (ri-se). Mas aproveito para dizer que eu condeno alguns críticos que só reconheceram que ele era tão bom quando começou a tocar standards. Muito antes, a tocar a música dele, já dava para perceber que ele era um monstro. É um monstro de música. Tão monstro como intratável como pessoa (ri-se de novo). É intratável e cheio de manias; é uma pessoa que não deve ser feliz, eu acho. Mas é absolutamente um monstro, musicalmente falando.
É o músico que toca mais contrapontístico do Jazz. Nunca houve ninguém a tocar tanto. O Brad Mehldau também faz contraponto, mas nada que se compare ao Jarrett. Ou seja, está a solar e em vez de estarmos a ouvir harmonia na vertical, dá sequência melódica a cada uma das vozes dos acordes. É mesmo uma coisa de um universo musical imenso. Ele está a tocar, está a solar e começamos a ouvir uma melodia; ele está a dar continuação a outras melodias! Eu acho isso uma coisa incrível!
Até morto eu reconhecia o Jarrett. Há alguns pianistas que nem morto eu falhava: O Monk, o Bill Evans, o Jarrett, o Bud Powell…