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As mulheres e o Jazz

 

 

Li algures que algumas músicas (mulheres) francesas de Jazz se queixavam de tratamento discriminatório por parte dos seus pares homens e pela crítica, que as ignorava sistematicamente nos prémios. A controvérsia do sexismo está na moda e deu azo a, em França, mas também por cá, inúmeros textos sobre o assunto.

Confesso que não me interessei muito pela situação concreta, e creio que existe algo de oportunismo na polémica. O sexismo na música, na arte e na sociedade possui várias facetas e a discussão não estará nunca encerrada, e deixem-me divagar um pouco sobre o tema.

A história da humanidade é uma história de vencedores e vencidos. Mas se ela é, como escreveu um sociólogo, Karl Marx, uma história de luta de classes sociais, ela é também, como observou um outro sociólogo, Pierre Bourdieu, uma história de dominação de homens sobre mulheres.
Interessou a Pierre Bourdieu o que ele chamou de poder simbólico, que está para além do exercício de poder físico do homem (baseado na força) ou, por outro lado, em especificidades femininas - como a maternidade -, que justificariam uma menor disponibilidade ou competências sociais da mulher (actividades, profissões, funções…).
A dominação masculina não poderia subsistir sem a colaboração activa das mulheres (os dominadores não poderiam dominar sem a colaboração activa dos dominados): Bourdieu investiga a forma como os homens foram capazes de, falando de forma leiga, convencer as mulheres da sua inferioridade; e sabemos como os textos sagrados, entre a Bíblia e o Corão, apresentam a mulher como um apêndice do homem. O poder simbólico exerce-se subtilmente, e de forma combinada com o poder físico, desde os primeiros dias de criança, quando aos meninos são oferecidos carrinhos e às meninas bonecas e os meninos aprendem a jogar futebol e andam à luta e as meninas brincam às casinhas. E depois as meninas incorporam o lugar das mães na sociedade e os meninos o lugar dos pais. São incontáveis as histórias das mulheres que por se recusarem a aceitar o papel de apêndice, foram violentamente queimadas como bruxas ou internadas em hospícios. O poder simbólico estende-se quando as histórias atribuem às mulheres a beleza e o amor, mas também o capricho, a traição e a perversidade, e aos homens o poder, a sabedoria, a inteligência e a confiança. O fenómeno de incorporação da subalternidade é a forma mais subtil e pérfida da dominação simbólica. Mas, enfim, não pretendo resolver em meia dúzia de linhas o que a sociologia e os estudos de género ou da subalternidade debatem há décadas.

A luta das feministas e sufragistas ao longo dos séculos XIX e XX (o direito de voto foi concedido às mulheres em 1918 na Grã Bretanha, dois anos depois nos EUA, e em Portugal em 1926 (apenas Juntas de Freguesia) e 1931, com restrições (apesar de Carolina Beatriz Ângelo ter votado em 1911 utilizando uma brecha na lei, prontamente corrigida – negativamente - pelos republicanos) e, fundamental, a emancipação económica que a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho no período da 2ª guerra mundial permitiu (nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo), abriu caminho para a sociedade equalitária que se deseja; sem que ela esteja prevista para os próximos tempos… e nem sequer vale a pena aludir às sociedades islâmicas onde as mulheres sofrem uma opressão que não tem precedentes nos períodos mais negros da história da humanidade.
Nas ciências, nas artes ou nas letras contam-se pelos dedos os nomes das mulheres reconhecidos, eu diria até quase metade do século XX. O próprio acesso das mulheres ao ensino estava vedado, e apenas as teses socialistas e republicanas deram credibilidade às reivindicações feministas, e mesmo assim de forma titubeante e nem sempre clara.

As sociedades contemporâneas procuram romper com as desigualdades do passado, mas as mulheres continuam a ser preteridas em muitos trabalhos e funções sociais e políticas, e auferem salários inferiores aos homens, mesmo em idênticas funções. No espaço mais privado da família também às mulheres e aos homens estão atribuídas diferentes funções e a sociedade não resolveu sequer de forma eficaz o problema da maternidade, quero dizer, sequer os simples problemas de creches e infantários que autorizem a mulher a libertar-se dos mais comezinhos problemas quotidianos. Diz Peter Materna, director do Jazzfest Bonn: «That's why there are so few women in jazz. Women have children and they often feel more responsible for their families than men do … They simply can't spend their nights playing in clubs». Trivialidades. Mas quantas mulheres renunciaram a potencialmente brilhantes carreiras profissionais, científicas, políticas ou artísticas, devido à maternidade ou … porque têm de limpar a casa ou tratar dos miúdos … ou simplesmente condicionadas pelas eventualmente brilhantes carreiras profissionais, científicas, políticas ou artísticas dos maridos.        

Olhando a História do Jazz facilmente concluímos que são poucas as mulheres no Jazz: na sua grande maioria os grandes nomes femininos cingem-se à voz e, logo de seguida mas em menor número, ao piano. E creio que não será difícil também encontrar, entre os ensaístas e historiadores, os que afirmaram que «o Jazz é música de homens», suportados na suposta incapacidade das mulheres em termos de vigor ou criatividade. (Em 1938, num editorial da Down Beat: Why Women Musicians Are Inferior, escrevia-se: «The woman musician never was born capable of sending anyone further than the nearest exit» mas, numa recente entrevista realizada por Ethan Iverson, o pianista Robert Glasper questionava as capacidades das mulheres para ouvir Jazz.) E nisso o Jazz não se comporta de forma diferente da sociedade, onde os meninos andam à luta e as meninas brincam às casinhas. Na música as mulheres têm instrumentos «próprios», melódicos, e os homens, pelo contrário, os instrumentos onde se exige força, mais ruidosos. Na música clássica e na música popular, no Jazz e nas músicas étnicas, o lugar tradicional das mulheres é a voz, ou, quando tocam instrumentos, o piano, as cordas, entre a harpa e o violino, e nos sopros quase apenas a flauta. E há mesmo culturas onde os instrumentos musicais estão vedados às mulheres. Mesmo quando abordam os mesmos instrumentos, o piano, por exemplo, as mulheres abordam-no de forma mais «sensível», enquanto os homens são mais agressivos: não há mulheres no piano stride

(Note-se que não pretendo desvalorizar a voz no Jazz: a voz é o primeiro dos instrumentos e verdadeiramente complexo, para além de acrescentar uma outra dimensão disciplinar à música ao combinar-lhe a poesia; mas acrescenta-lhe também emoção - escrever a História do Jazz sem referir a Billie Holiday ou a Ella Fitzgerald é escrever meia História. Mas, ao arredar algum do abstracto da música – do ponto de vista em que a esclarece – o Jazz vocal alcança um público mais alargado, muito para além do Jazz, e tocando amiúde a pop music; e neste sentido poderíamos facilmente tomar o Jazz vocal como um género específico.
Contraditoriamente, o público exige que as cantoras se apresentem belas [a beleza, o objecto do desejo, em papel pouco mais que decorativo, quantas vezes ocupando o lugar da música], mas desvaloriza-as enquanto músicas, compositoras ou instrumentistas. Mas ora a opinião do público é determinada por homens, mas o belo é exigido também pelas mulheres que se identificam ou têm como ideal aquele belo, e enfim por um público maioritariamente ignorante em termos musicais.
Algumas cantoras ainda esquivam-se à utilização das palavras e da poesia, ora imitando instrumentos - como o faz o scat – ora oferecendo novas subtis dimensões instrumentais à voz; ou combinando formas poéticas e mais ou menos abstractas.
Enfim, como instrumento especial, nas diversas dimensões, musicais e sociais, o Jazz vocal merece tratamento especial a que me esquivarei para já.)

O paradigma reproduz-se, sim: a sociedade contemporânea, se procura romper com os paradigmas do passado, continua a reproduzir o conceito de que a beleza é um atributo feminino e a força é própria dos homens, e este será o principal motivo para a escolha dos instrumentos; para a reprodução dos cânones. Na cena internacional ou nacional (e no Jazz, na música clássica ou na pop), passa-se basicamente o mesmo: os homens ganham claramente em número e as mulheres são verdadeiramente excepção, e quase sempre as vocalistas.

A verdade é que as mulheres existem no Jazz desde sempre, na sua grande maioria pianistas (as meninas de bem falam francês e tocam piano, mas nenhuma menina respeitável entra no mundo do espectáculo), embora com reconhecimento público diminuto. Como as feministas dizem: as mulheres precisam esforçar-se ao dobro para obter metade do reconhecimento dos homens
Estando as mulheres em inferioridade numérica no Jazz, elas existiram, embora tenham sido muito poucas as que lograram obter algum reconhecimento. A primeira das músicas referida em todos os textos terá sido Lil Hardin - «Hot Miss Lil» - depois Lil Armstrong, a pianista da Creole Jass Band de King Oliver (“She played like a man, but dressed like a Sunday school teacher”, escreveu James L. Dickerson). Lil foi também compositora e a leader da Lil Armstrong All-girl Band nos anos 30.

(Ignorando as vocalistas) outras mulheres se evidenciaram na primeira metade do século, muito em especial a grande Mary Lou Williams (1910 - 1981), pianista, compositora e arranjadora, autora de inúmeras de composições e arranjos utilizados por Duke Ellington ou Benny Goodman; Melba Liston  (1926 - 1999), trombonista, arranjadora e compositora, também activista dos direitos cívicos, ou Marian McPartland(1918 - 2013) pianista, compositora e educadora.
Ao longo desses primeiros 50 anos do Jazz, poucas foram as mulheres que obtiveram algum reconhecimento, e muitas das atrás referidas só ganharam visibilidade após a revolução cultural dos anos 60 – 70, mercê do trabalho de investigação de historiadores. Reconhecem-se hoje os nomes das pioneiras Sweet Emma Barrett (1987 – 1983), pianista; Billie Pierce (1907 – 1974), pianista; Jeanette Kimball (1906 – 2001), pianista; Lovie Austin (1887 – 1972), pianista, bandleader; Nellie Lutcher (1912 – 2007), pianista, compositora e cantora; Dorothy Fields (1905-1974), songwriter; Ann Ronell (1905-1993), songwriter; Irene Higginbotham (1918-1988) songwriter; Billie Holiday, cantora, mas também compositora de alguns dos mais importantes standards do Jazz; para além da já referida Mary Lou Williams – todas pianistas da primeira metade do século.

No período swing surgiram também algumas primeiras female jazz bands, de interesse desigual, contendo um factor espectáculo acentuado, suportado na característica «exótica» feminina (já que o Jazz é música de homens…) do grupo. De entre estes grupos e orquestras, alguns de características familiares, são de referir, pela importância musical, as Bobbie Howell’s American Syncopators, as Bobbie Grice’s Fourteen Bricktops e as International Sweethearts of Rhythm, a primeira all girls band integrada. É provável que, entre os grupos e orquestras femininos (brancos, negros ou crioulos) que surgiram nos anos 30-40, aproveitando a popularidade das orquestras swing nos salões de baile, e que acompanhavam os soldados americanos na II Guerra Mundial, houvesse algumas instrumentistas de gabarito, e apenas é possível adivinhá-lo por algumas gravações ou vídeos porque, devido ao estigma de que as mulheres não sabem tocar, ou de qualquer forma não possuem aptidões para o Jazz, poucas ganharam notoriedade.

Em clara minoria, mas capazes de tocar Jazz foi ainda assim assinalada a orquestra de Woody Herman, onde tocavam a trompetista Billie Rogers (1917 – 2014) e a vibrafonista Marjorie Hyams (1912 – 2012); Melba Liston, trombonista, contratada por Gerald Wilson depois de se fazer notada na Sweethearts of Rhythm; Elsie Smith, saxofonista da orquestra de Lionel Hampton; Jean Starr, trompetista da banda de Benny Carter, Mary Osborne (1921-1992), uma admiradora de Charles Christian que tocaria com Joe Venuty, Stuff Smith, Dizzy Gilespie, Coleman Hawkins ou Thelonious Monk; ou ainda a trompetista da girls band Bobbie Howell's American Syncopators, Dolly Jones

O período após a guerra foi um período especialmente interessante do ponto de vista político, social, cultural e mesmo artístico. O mundo estava em turbulência, as últimas colónias (a última das quais as portuguesas) caíam, os movimentos contra a guerra (do Vietname ou das colónias portuguesas) ou pacifistas atravessavam a sociedade, tocando em especial os jovens, e as reivindicações igualitárias e dos direitos cívicos, abanavam o status quo da sociedade americana, e nisto, as reivindicações feministas, também, ganharam importância (para o que contribuíram, como atrás referi, a luta das sufragistas e feministas e a crescente independência económica feminina).

Algo começou a mudar quando as mulheres começaram a reivindicar lugares na música, já não como extravagância ou curiosidade etnográfica, mas como instrumentistas, directoras, compositoras ou intérpretes de pleno direito, ombreando com os homens.
A conturbação social e cultural (e artística) no mundo ocidental teve reflexos no Jazz também (e foi neste período também que o Jazz dirimiu também, definitivamente, as suas fronteiras regionais, ou étnicas-culturais). Após o primeiro período clássico, transitando entre o bop e os anos 60-70 e a explosão do free jazz, algumas figuras femininas ganharam proeminência; e cada uma destas mulheres mereceria por si só uma mais extensa atenção:
Vi Redd (1928), saxofonista (alto) (que é referida como possuidora de um groove rival de John Coltrane); Toshiko Akiyoshi (1929), pianista, compositora e directora de orquestra; Nina Simone (1933 –2003), pianista, cantora, compositora, ativista dos direitos civis dos negros norte-americanos, que espalhou a sua obra pelo Jazz, mas também pela pop, o blues, a folk e o gospel; Alice Coltrane (1937 – 2007), harpista, compositora, directora; Shirley Horn (1934 – 2005), cantora e pianista); Marjorie “Marjie” Hyams (1912 – 2012), elegante vibrafonista que tocou com Woody Herman e George Shearing, também pianista e compositora; de novo citando Melba Liston, «who shared the stage with jazz greats John Coltrane and Duke Ellington?» (Max Hunger).

O Jazz que acompanhou e contribuiu para a revolução estética, artística, política e social dos anos 60 e 70, gerou também alguns movimentos feministas radicais que se expressaram de forma diferente na organização de festivais de Jazz exclusivamente femininos (o primeiro Women’s Jazz Festival teve lugar em Kansas City em 1978), assim como grupos de mulheres (as all girls bands da swing era não eram propriamente grupos feministas), como o Feminist Improvising Group (FIG) que Rui Neves trouxe ao Festival de Jazz de Setúbal em 1981. Estas manifestações radicais prosseguem.
Mas entre os anos 70 até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que o Jazz explodia em todos os sentidos, com vanguardistas contemporizando com a pop ou o bebop, as mulheres vêm entrando paulatinamente no Jazz, disputando os lugares tradicionalmente masculinos em todos os instrumentos, e questionando até os ideais da doçura feminina.

(Dispensar-me-ei, a partir de agora, de, com algumas excepções, referir as datas de nascimento das músicas). A mais notável das instrumentistas, compositora, bandleader, organista e pianista surgidas no período do free será porventura Carla Bley, erudita, verdadeiramente inclassificável, transversal entre o free radical, o mais clássico do Jazz e outros géneros musicais; mas outras, dos últimos quarenta anos interessa referir, com a certeza de que me esquecerei de muitas (sem qualquer critério):
Emily Remler, guitarrista, desaparecida com apenas 32 anos de idade em 1990; Mary Halvorson, guitarrista; Geri Allen, pianista, falecida em 2017; Marilyn Crispell, pianista; Irene Schweizer (pianista que esteve em Setúbal com o FIG); Aki Takase, pianista; Joanne Brackeen, pianista; Sylvie Courvoisier, pianista; Myra Melford, pianista; Patricia Barber, pianista e cantora; Diana Krall, pianista e cantora; Maria Schneider, compositora, arranjadora, bandleader; Terri Lyne Carrington, bateria; Cindy Blackman, baterista; Allison Miller, baterista e compositora que tocou em 2017 em Guimarães (à frente de um grupo que tinha Myra Melford no piano); Tomeka Reid, celista; Joelle Leandre, violoncelista; Esperanza Spalding, baixista, vocalista e compositora; Regina Carter violinista; Ingrid Jensen, trompetista; Ingrid Laubrock, saxofonista;Jane Ira Bloom, saxofonista; Matana Roberts, saxofonista; Anat Cohen, clarinetista e saxofonista; Tia Fuller, saxofonista; Jamie Branch, trompetista; e Anna Weber, saxofonista. Estas duas últimas ganharam o prémio Músico Revelação Internacional na votação da crítica de Jazz nacional, respectivamente em 2017 e 2016.

O Jazz não é diferente da sociedade, e a necessidade de nomear as mulheres que se evidenciaram no Jazz revela em si mesmo a sua escassez. Admito que muitas mulheres que passaram pelo Jazz ao longo do século XX e até hoje, terão ficado esquecidas, relegadas para um injusto anonimato, mas a verdade é que elas sempre foram em número reduzido no Jazz, numa proporção que será talvez de uma mulher para cem homens. É também verdade que o Jazz continua a ser entendido como música de homens; mas não é o Jazz: é a música e é a sociedade. Os homens dirigem, os homens decidem, os homens avaliam, os homens dominam. A frase «por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher», que parece elogiar as mulheres, é apenas significativa do lugar das mulheres na sociedade: atrás. A frase bem intencionada de Peter Materna «Women musicians are just as good as men - in certain areas, they are even more interesting» é também ela traiçoeira: o Jazz é uma produto da criação humana, da inteligência, da criatividade e da emoção. Da «criação humana»; não dos homens. O que conta não é a maior força física ou quaisquer características particulares de género. Há homens mais criativos que outros, mas muita das suas capacidades podem ser e são estimuladas. A habilidade instrumental não é o único critério: o (para mim) maior pianista da História do Jazz, Thelonious Monk, não era um virtuoso. Há muito de adquirido na inabilidade das mulheres para o Jazz: as mulheres são treinadas para estar por detrás dos homens, a tratar das crianças e da família; para não ser criativas. As mulheres reproduzem o que as mães foram, que por sua vez reproduzem o que as suas avós foram. Sem se aperceberem elas contribuem para a dominação masculina (Bourdieu). Umas mulheres serão mais criativas e outras menos criativas. Da mesma forma como os homens. Não mais interessantes como género, mas com certeza muitas terão, como os parcos exemplos femininos da História do Jazz demonstram, muito para oferecer ao Jazz.

A sociedade está a mudar, e é impossível antecipar para onde ela se dirige, dado que os movimentos são contraditórios. Um presidente sexista (e racista e ultraliberal e…) na mais poderosa nação do planeta é um retrocesso (também) nos direitos humanos, mas o movimento Me Too é um sinal interessante por parte das mulheres que não aceitam mais a discriminação (que recusam a colaboração activa na discriminação, o assédio, o abuso, mesmo se o movimento é contraditório, com algumas posições abusivas e mesmo oportunistas - que apenas temos de compreender devido ao abuso que as mulheres sofreram e algumas directamente na pele, de forma traumática).

No ocidente (o ocidente é uma definição vaga que inclui democracias e outras pouco democracias, e onde alguns cidadãos são mais cidadãos que outros) as mulheres vêm reivindicando mais lugares na política, na economia, no trabalho, na cultura e na música, mas o caminho para a igualdade é longo (igualdade, bem entendido, fim da discriminação, reconhecimento da diferença, igualdade de direitos e de tratamento, no acesso à política, à economia, à cultura, igualdade na sociedade e na família…).

A forma como as mulheres exprimem a sua revolta é também ela contraditória, com manifestações radicais nem sempre producentes. Diria que os festivais de Jazz exclusivamente femininos ou os grupos feministas, como quaisquer sistemas de quotas ou de valorização ou discriminação positiva, são erróneos, a começar porque não têm como objectivo o Jazz, mas o próprio feminismo. É necessário compreendê-los, dada a opressão e o drama que as mulheres viveram ao longo dos séculos (no Jazz também), e como manifestações naturais da revolta, mas elas pecam pelo primarismo e até por injustiça. Tão erróneos como culpar o vulgar cidadão do passado colonialista do seu país. Errados e contraproducentes.

As mulheres foram e são injustiçadas e discriminadas e o Jazz não é diferente da sociedade. Mas se a sociedade está a mudar e cada vez há mais mulheres a tocar Jazz, o problema é também por haver poucas mulheres a tocar. Como são raras as mulheres na crítica e na história, no ensaio e no pensamento sobre o Jazz. Mais importante que questionar sobre uma ou outra reivindicação mais ou menos pertinente ou oportunista ou desfocada, é necessário promover as mulheres na música.

O mundo do Jazz é um mundo de homens como a crítica de Jazz é um clube de homens, e é-o porque vivemos numa sociedade de homens (onde os homens dominam). Mas se isto é verdade, dizer que as mulheres são discriminadas nas votações do Jazz pode surgir tão bizarro como dizer que os chineses são discriminados nas votações do Jazz: metade da população do planeta é discriminada?
O que eu estou a dizer é uma provocação, é claro. Porque as mulheres não tocam Jazz porque o Jazz é um mundo de homens, mas os homens não proporcionam às mulheres a possibilidade de tocar Jazz: a discriminação só poderá terminar quando houver mulheres a criticar Jazz, a votar Jazz e… a tocar Jazz.

Eu diria que na crítica de Jazz contemporânea as mulheres têm vindo a ser reconhecidas, mesmo se permanecendo em minoria. Carla Bley, Maria Schneider, Geri Allen, Terri Lyne Carrington, Ingrid Jensen, Aki Takase, Esperanza Spalding, Diana Krall, Regina Carter, Jane Ira Bloom, são nomes referidos desde há muitos anos na crítica internacional, e na votação da crítica nacional algumas mulheres foram mencionadas também: em 2015 duas mulheres obtiveram reconhecimento: Maria Schneider (melhor CD: The Thomson Fields, e 2.º lugar Músico do Ano Internacional), e Susana Santos Silva (2.º lugar Músico do Ano Nacional); em 2016 a saxofonista Anna Webber foi reconhecida como o Músico Internacional Revelação, e em 2017 o mesmo prémio foi atribuído à trompetista Jaimie Branch.

A situação em Portugal não é muito diferente da situação internacional, mas o salazarismo provocou em Portugal um atraso de décadas, de que ainda não recuperou; e o salazarismo era especialmente opressor quanto às mulheres. É necessário romper também com o lugar tradicional que a mulher ocupa na sociedade portuguesa, e uma vez mais esse é fundamentalmente um trabalho das mulheres. Mas o Jazz em Portugal padece ainda do seu aparecimento tardio, do facto também da primeira escola de Jazz ter surgido apenas nos anos oitenta, e apenas institucionalizada já nos anos noventa; mas também do próprio ensino da música nas escolas que é ridiculamente incipiente. As mulheres no Jazz (ignorando, uma vez mais as cantoras, a que me dedicarei, talvez, mais tarde, assim haja motivação e tempo) contam-se pelos dedos de uma mão: a Susana Santos Silva no trompete, a Paula Sousa no piano, Andreia Santos no trombone, Isabel Rato, pianista, e mais algumas que me perdoarão o esquecimento.

É o cerco que é preciso quebrar; é o círculo vicioso. Mas não é no Jazz, ou não é apenas no Jazz: é na sociedade. É preciso que haja mais mulheres a tocar, é preciso que as mulheres reivindiquem o seu lugar nas bandas como trompetistas, como pianistas, como bateristas, como músicos de pleno direito; é preciso mais mulheres a tocar. Mas é preciso que sejam criadas condições na sociedade para que as mulheres tenham disponibilidade para aprender a tocar, que tenham acesso à música, à formação, aos instrumentos até. E é preciso mudar mentalidades para que as mulheres possam ser profissionais da música, que possam ser artistas, que não fiquem atrás dos homens. Mas, quer queiramos ou não, este é principalmente um trabalho das mulheres. É preciso que as mulheres combatam em primeiro lugar a sua própria incapacidade para tocar Jazz, que elas combatam o poder simbólico que lhes atribui um papel secundário na sociedade, que quebrem a sua colaboração activa na dominação masculina, e começando até por criar, reivindicar, condições concretas, objectivas, físicas, materiais, económicas, sociais, que as libertem desse lugar secundário.  

 

20 de Março de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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