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Funchal Jazz 2026

 

 

Há festivais que se bastam a si mesmos enquanto acontecimento anual, e a sua qualidade e personalidade medir-se-á basicamente pelo nível, dimensão e diferença da programação; mas outros há que contam com a comunidade, os músicos e o público, e a programação é apenas (enfim, nunca será apenas) um item com que também é necessário contar para aferir da sua idoneidade.
O caso do Funchal Jazz é exemplar. Tendo começado no ano 2000 como um evento anual, como uma programação leve, de acordo com um modelo próximo do festival de Montreux, a direcção que assumiu os destinos do festival em 2014 impôs um modelo que se vem paulatinamente consolidando.

Sem subtileza foi a imposição desde a primeira hora de uma programação Jazz inequívoca, que se demarca da anterior programação “pop” híbrida, e basta um olhar fugaz para a programação do Funchal Jazz 2026 - de Joel Ross a Jason Moran, de Joe Lovano a Immanuel Wilkins: a nata do Jazz internacional - para se perceber que se está verdadeiramente num festival de Jazz.

Por outro lado, também, desde a primeira hora que o festival se foi aproximando da comunidade Jazz da ilha, tornando-se útil, dando a conhecer ao público os jovens músicos do Conservatório, e trazendo os novos projectos dos músicos madeirenses radicados no continente ou no estrangeiro para o novo espaço que o festival logrou ganhar, no Jardim Municipal do Funchal, por onde têm desfilado inúmeros valores madeirenses-internacionais, e para onde levou as PAPs (Provas de Aptidão Profissional) dos jovens alunos do Curso de Jazz do Conservatório da Madeira. E eu já dei conta noutros anos do sucesso da iniciativa.

Mas o que tem ganho importância tem sido a apresentação da jovem Orquestra de Jazz do Funchal no anual Festival de Jazz do Funchal.
A Orquestra nasceu de forma hesitante em 2019/20 a partir de uma ideia dos irmãos Alexandre e Francisco Andrade e Filipe Freitas, mas ganhou pertinência numa primeira apresentação no festival, em 2022, complementando a música do pianista Mário Laginha. E logo no ano seguinte a orquestra sofreu um valente repelão sob a direcção exigente de Perico Sambeat, em 2024 fez brilhar a música já de si luminosa de André e Bruno Santos, em 2025 soube entusiasmar a maestrina Maria Schneider, e, em 2026, enfim, logrou fazer o melhor concerto do Funchal Jazz sob a direcção de Jason Moran.
A orquestra poderia viver sem o festival (mas não era a mesma coisa), o festival dá justificação à orquestra e ajuda-a a crescer, os dois ganham na parceria.

Jason Moran & Orquestra de Jazz do Funchal play Duke Ellington
Entre os factores que contribuíram para fazer deste concerto um acontecimento memorável, esteve perspicácia do senhor Jason Moran que, tendo conhecimento da juventude da orquestra, e que tinha apenas dois dias para os ensaios, seleccionou um repertório mais conhecido de Duke Ellington, mais popular e epidérmico, o Ellington do período jungle pré-guerra.
A contribuir para tornar aquele um concerto o momento alto do festival estava pois a inteligência e personalidade musical de Jason Moran, e aquela autoridade e aquele entusiasmo contagiam, mas eu diria que a matéria-prima já estava lá, como foi possível ajuizar no desfiar de solistas, um após outro a fazer levantar a plateia, na fogosidade da secção rítmica ou na transfiguração da cantora Madalena Caldeira.
A orquestra convidou ainda dois outros músicos, o saxofonista Ricardo Toscano, que tocou quase sempre clarinete - um instrumento mais comum nos anos 30 que o saxofone -; e o guitarrista André Santos, que privilegiou a braguinha (a braguinha é um instrumento popular da Madeira que, se bem que com um timbre diferente do banjo, que era vulgar no período pré-guerra, como ele tem cordas de aço e possui características que se aproximam das exigências rítmicas da orquestra e da música de Duke Ellington. Acresce ainda que André Santos é um especialista nos cordofones madeirenses.)
Ainda os músicos se não tinham sentado todos e os timbalões da bateria faziam-se ouvir em jeito de chamamento, antecipando o piano que atacava a célebre abertura de Ellington «Kinda Dukish/ Rockin’ in Rhythm», dando o mote para a festa.
Mais serena e sensual, a orquestra deixou-se atrasar com o luxuriante «Such Sweet Thunder» (1957), uma das mais aclamadas suites da colaboração Billy Strayhorn/ Ellington, passando a «Braggin’ in Brass» com um engenhoso arranjo para metais, e o pianista dirige-se ao microfone para chamar Madalena Caldeira que vinha cantar «My Heart Sings».
E dir-se-ia que o tempo parou por momentos, e é já a canção que se insinua na voz de Madalena, que decide como cantar (como deve ser), belíssima, e logo depois já nas rédeas, almejando e logrando a alegria de Ella com «It Don’t Mean a Thing»; toda a orquestra a destilar energia.
A orquestra andava para trás no tempo com «Mood Indigo» (1930), outra das mais populares composições de Duke Ellington, com um arranjo particularmente inspirado de Jason Moran. Três sopros saltam para a ribalta, clarinete (Ricardo Toscano fora de pé), o trompete de Alexandre Andrade e Xavier Sousa no trombone, ao despique, com a braguinha de André Santos a acrescentar à bateria (Francisco Coelho) e ao enérgico Emanuel Inácio.
Um salto no tempo para «Northern Lights» (1959) e outro trio na boca do palco, com Toscano de novo a sair-se bem no clarinete, Alexandre no trompete e o irmão Francisco Andrade no seu instrumento (saxofone tenor), numa interpretação cheia de movimento.
Enfim, agora já no saxofone alto Ricardo Toscano recebe uma das maiores ovações da noite em «Jeep’s Blues» (um tema composto por Ellington expressamente para o alto de Johnny Hodges, um dos companheiros ao longo de mais de quatro décadas); e nova ovação, desta feita para o solo de guitarra eléctrica de André Santos a fornecer um toque de modernidade ao clássico.
Madalena Caldeira regressou para interpretar «I Like the Sunrise», numa interpretação maravilhosa. Madalena não quer inventar nada, o que ela fez já foi feito milhares de vezes, e noutras alturas eu justifiquei alguma hesitação da cantora com a juventude e a insularidade. Esqueçam. O que Madalena Caldeira fez naqueles cinco minutos finais da actuação da orquestra foi, repito, absolutamente maravilhoso, porque foi capaz de entrar na canção, ou melhor, deixar entrar a canção. Madalena Caldeira tem tudo, tem voz, tem técnica, tem ouvido. Sim, falta-lhe personalidade, que é próprio da juventude, mas isso não se sentiu aqui; falta-lhe direcção musical, mas isso não se sentiu aqui; falta-lhe convicção, mas isso não se sentiu aqui. Madalena tem voz, amplitude e maleabilidade, mas o que ela foi capaz de comunicar acima de tudo foi emoção; e isso fez a diferença. (Fechei os olhos e ouvi uma grande cantora!) Sem desprimor para todo o concerto, os músicos e os solistas, este foi um dos momentos mais altos do festival.
E enfim Jason Moran e a Orquestra de Jazz do Funchal terminaram o concerto «Play Duke Ellington» em festa com «Come Sunday», toda a orquestra e cada um; aquele pianista singular, um monstro do piano (o stride depurado, violento e doce), mestre até na forma como se reservou, como deixou brilhar a orquestra, trazendo para a ribalta um ou outro solista, no engenho posto nos arranjos (olhos e ouvidos na personalidade dos músicos, à maneira do mestre), impondo-se na direcção, como o Duke Ellington faria, afinal. E tudo pareceu tão fácil, tão natural!
Em evidência Alexandre e Francisco Andrade, que no fim do concerto não cabiam em si de contentes, com um dos maiores desafios das suas carreiras superados, Madalena Caldeira, os solistas convidados, Ricardo Toscano e André Santos, e ainda a jovem dinâmica secção rítmica de Emanuel Inácio e Francisco Coelho, e cada um e todos. E o monstro do piano, arranjos e direcção, Jason Moran.
Um concerto memorável!

PAPs
O festival tinha começado já na segunda feira com as provas de aptidão profissional (PAPs) da alunos do Conservatório da Madeira no Jardim Municipal do Funchal.
Já falei disso antes: a integração das PAPs no festival e num espaço público do Funchal tem-se revelado ideia acertada, ligando o Conservatório à cidade, oferecendo-lhe utilidade e acerto; e ao mundo, que o festival também representa. O elevado nível dos músicos que vêm saindo do Conservatório oferece ainda uma tarde de prazer para o público que se desloca ao Jardim.
Os alunos deste ano foram Sofia Ribeiro, Samanta Andrade, Salvador França, Isabel Sousa, Ana Rita Aguiar, Gustavo Pestana, Laura Dilara e Catarina Gonçalves.
Para o fim da tarde de quarta estavam programados dois concertos, um primeiro tendo os veteranos André Santos e Alexandre Frazão como protagonistas, e um quinteto liderado pela cantora madeirense Madalena Caldeira.

André Santos & Alexandre Frazão
Um duo de guitarra e bateria não é uma formação vulgar, e o concerto improvável de André Santos e Alexandre Frazão foi, dir-se-ia, “apenas”, mais outro encontro dos dois amigos, como vêm acontecendo desde há três anos.
O concerto começou com uma longa improvisação, vagamente balizada por um ou outro motivo melódico, a que se seguiu um tema mais curto, rematando com uma interpretação do clássico «Só» de Jorge Palma.
Veteranos, grandes músicos, o duo faz uma música descontraída e saborosa, sem pretensões, e Frazão e Santos esclareceram que o motivo primeiro destes encontros é divertir-se - e claramente eles comportam-se como dois amigos que se divertem - o que é a mais válida das razões para a música. A música flui naturalmente e derrama-se pela plateia; e tem-se a sensação de que o alinhamento não teria sido o de ontem e não seria o de amanhã.
Como nota, o registo do fortuito encontro na Madeira foi motivo para a gravação de um disco, que aconteceu no dia anterior, e que deverá ver a luz antes do fim do ano.

Madalena Caldeira Quinteto
Diz o currículo de Madalena Caldeira, que ela começou a cantar com 8 anos de idade em programas de rádio e eventos locais da Madeira, tendo ingressado no Conservatório da Madeira em 2018 e posteriormente na Escola Superior de Música de Lisboa, sendo apontadas como influências Betty Carter, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Carmen McRae e Billie Holiday.
Creio que algumas destes ascendentes se terão esvaído com o tempo, e o que se tornou óbvio neste concerto foi bem uma influência mais contemporânea, a de Cecile McLorin Salvant, que claramente anda a ouvir; mas onde se sente também a maleabilidade da cantora (que será resultante, também, da sua juventude).
Prognósticos são arriscados e perversos, mas eu arriscaria que Madalena Caldeira pode fazer história.
Eu já escrevi: Madalena Caldeira tem tudo, tem voz, amplitude e maleabilidade, tem técnica, tem ouvido. O que faltou aqui e sobrou no concerto de sábado foi convicção e emoção e personalidade (e é claro que Jason Moran tem esse efeito nos músicos, que é insuflar-lhes a alma [do Jazz])
Posto isto - e este texto foi afectado pelo outro -, o Quinteto de Madalena Caldeira faz um bom concerto. Correcto (honesto, diz-se), os músicos sabem tocar, mas não tocam regularmente como banda, e isto sente-se. Sem observações negativas, aqui e ali sente-se a força do contrabaixo mingusiano ou a jovialidade do piano, mas faltou um pouco colectivo.
E se todos estiveram bem, eu permito-me destacar a guitarra, pela subtileza, pela fora como se insinua, como antecipa ou sublinha a voz, empático (com a voz), imperceptível, e no entanto fundamental, o grande Mateus Saldanha foi a peça basilar do quinteto; cumprindo exemplarmente o papel dúbio que a guitarra tem nos grupos de voz, entre a secção rítmica e o solista.
E, enfim, o piano, jovial, com eu disse, mas é o Hugo Lobo, o que é, provavelmente, o pianista mais Jazz de todo o panorama português. Pelo ataque, pela sonoridade stride, pela articulação, pela linguagem, (e pela alegria) o Hugo Lobo faz-se notar.  
Já falei da cantora, das qualidades vocais, e se se lhe pode ser apontado a colagem à Cecile ou aos parcos momentos de improvisação (improvisação que esteve do lado dos músicos, e nos momentos pré-concebidos), a Mariana não abusou do scat, o que foi bom, e foi capaz de se sustentar imperturbável no arranque a capella de um dos temas.
Diria que falta direcção musical a Madalena Caldera, que se sente, por exemplo, na escolha do repertório, e lhe falta segurança. Mas a matéria-prima está lá toda, e há muito tempo que não ouvia uma voz assim.
As minhas dúvidas passaram todas três dias depois, já no palco principal do festival.

Duarte Ventura Quintet
Na quinta-feira o festival mudou-se para o Parque de Santa Catarina arrancando, à semelhança do ano passado, com um grupo português. O escolhido foi o Prémio Revelação JazzLogical 2024 e Prémio Combo Jovens Músicos 2023 RTP, Duarte Ventura.
O Duarte Ventura Quintet pratica um Jazz sólido e inequívoco e o grupo revela uma coesão que denota um conhecimento longo. Os instrumentistas são, também eles, músicos proficientes, a começar pelo líder, vibrafonista, voluptuoso, muito rápido. O saxofonista, Miguel Valente, a viver em Amsterdão, foi o outro músico em evidência. Frases muito curtas num jorro ininterrupto, lembrou por vezes o vulcânico Jon Irabagon, e ele foi amiúde o contraponto ao vibrafone. Zé Almeida, contrabaixo, e Luís Possollo de Carvalho, bateria, e (um menos interventivo) Miguel Meirinhos completavam a máquina bem oleada que o quinteto é.
A minha única observação quanto ao concerto do quinteto de Duarte Ventura não tem a ver com a música, mas com alguma imaturidade que respeita ao factor “espectáculo”, ao não compreender que estava numa festa, perante uma plateia de mais de mil pessoas, ao ar livre, para quem os artifícios de uma música, ainda que primorosamente executada, mas ausente de espectáculo, é incapaz de tocar. O quinteto tinha um disco para apresentar e foi isso que tocou, sem qualquer empatia para com o público.
Este, chamo-lhe alheamento, do público, é bastante vulgar, e eu não sei dizer se o problema, se existe, é do público ou dos músicos, se tem solução ou se é um dilema irresolúvel.
Dir-me-ão que a imaturidade é do público, e o artista tem como dever, tão só, de apresentar a sua música, o que eu terei de aceitar também. Mas enfim, pois, talvez, não sei, não se trata de trata de aligeirar o concerto; trata-se apenas de criar empatia com o público.   
Mas enfim, perdoem-me o despropósito da observação, porque o quinteto fez realmente um bom concerto.

Ledisi
Aproveitando a ocasião, e falando de espectáculo e aligeirar, o concerto de Ledisi esteve bem nos antípodas. Sem perder muito tempo, Ledisi representa um pouco o oposto, ao fazer um concerto que se determina pelo público.
Ledisi tem claramente uma grande voz, mas a sua escolha vai mesmo para a música pop, a pop de tradição negra, bem entendido, como a homenagem a Dinah Washington explicita. A grande Dinah Washington foi uma cantora que percorreu todos os géneros, do Jazz à soul, do funky ao r&b, do blues ao gospel. Dinah tornou-se uma cantora popular muito rapidamente (antes de desaparecer tragicamente com apenas 39 anos de idade), mas a sua versatilidade traía-a e os seus discos são bastante desiguais. Eu diria que Ledisi persegue essa mesma fome de agradar que era de Sarah, e o concerto foi também ele muito irregular, entre o Jazz, a soul e o rythm & blues.
Ledisi cantou «You Don’t Know What Love Is» ou «What a Difference a Day Made» bem, tentou o scat em «Nobody Knows the Way I Feel», prosseguiu com «You Go to My Head», mais vulgar, apela ao público para a acompanhar em «Love You Too», tenta o Jazz em «Caravan», termina bem com «Nothing Till You Hear From Me”.
Banda de excelentes músicos com comportamento irregular, de acordo com o repertório, passando do contrabaixo para o baixo eléctrico (aborrecido), piano discreto, bateria competente, a servir uma voz que faz o que quer, e por vezes quer, e que resultou afinal num concerto agradável e bastante aplaudido.

Joel Ross Good Vibes
É muito curioso que os dois concertos de Joel Ross no Funchal tenham sido completamente diferentes entre si. Recordo-me do concerto do Good Vibes de 2022 ter sido bonito, espiritual, e este foi, pelo contrário, cerebral. Ou ainda de como o anterior foi inequivocamente Jazz e o de hoje se afastar de certa forma do Jazz, introduzindo formas que pertencem à música repetitiva erudita.
O primeiro tema foi bastante longo, talvez uma hora, e a referência à música de Steve Reich ou Terry Riley parece-me absolutamente pertinente: curtos motivos melódicos que se repetem como padrões e a que eventualmente é introduzindo um elemento, uma nota é alterada, acrescida ou suprimida, por vezes um novo instrumento, como acidentes naturais, criando por vezes um efeito hipnótico na audiência.
Ainda assim a forma de Joel Ross não é propriamente a dos minimalistas, e porque ele é um músico de Jazz, e, como tal, muitas dos motivos que usa não são abstractos como os desses outros, mas fragmentos de melodias (que quase identificamos), e as irregularidades são bastante improvisadas, e o jogador (como em Rayuela) decide a cada momento como a história continua.
Um maior e engenhoso uso do ritmo, também, não fora o vibrafone um instrumento de ritmo e não fora ele um mestre da manipulação do tempo. Joel Ross acelera ou atrasa o tempo sem que a música se sinta, sem que nos apercebamos, até que sai, deixando o trio só, o piano nos destinos (e diria que o trio - Tyler Bullock, piano, Luca Alemanno e Jeremy Dutton - sobreviveria sozinho), para de novo recomeçar. 
E de repente, Joel Ross anuncia o fim, lacónico, com uma melodia tranquila e bonita como uma canção, um solo de contrabaixo duro e o regresso à melodia. Fim do jogo.

Immanuel Wilkins Quartet
Se me pedissem para dar o nome de dez dos maiores saxofonisas da actualidade, sem dúvida alguma que o Immanuel Wilkins estaria entre eles. Saxofonista vertiginoso, quase a entrar nos 30 anos, a sua carreira disparou há apenas seis anos quando a Blue Note o convidou para gravar (com o alto patrocínio do senhor Jason Moran) e desde aí ele não parou.
Esta é a, sei lá, sétima ou oitava, ou décima vez, talvez, que assisto a um concerto de Immanuel Wilkins, e o vocábulo que me surge sempre é: vulcão.

O saxofone esteve impetuoso, como esperávamos, mas creio que a banda que se apresentou no Funchal é uma banda de estrada e nem sempre o acompanhou. Baterista competente e baixista clássico e correcto, mas estes não são adjectivos para uma banda de Wilkins. Melhor esteve o pianista, Micah Jones, sólido e experiente, com a dose de inquietude que a música exigia.
A acrescentar foi a utilização, pelo saxofonista, de um teclado e um outro dispositivo que
controlava o som do saxofone e que produzia um som estranho.
Mas mais grave, creio que o técnico dos fumos e das luzes terá tido uma alucinação, porque quase deixámos de ver os músicos, ora porque havia um nevoeiro pesado no palco, ora porque os holofotes apontavam insistentemente para a plateia e mesmo as câmaras pareciam também ter entrado em colapso. Parcimónia, precisa-se, porque estas coisas afectam o espectáculo. Se estivéssemos num espectáculo pop, a pirotecnia seria talvez bem-querida, mas, falo por mim, o excesso perturba-me.
O repertório, desigual, também me intrigou. Depois de alguns temas onde a sonoridade característica de Wilkins estava óbvia, o saxofone no centro da música, e depois de, como disse ele parecer deambular pela electrónica algo espúria, ele anunciou um tema, talvez o melhor momento da noite, dedicado a Henry Threadgill, Geri Allen e Keith Jarrett; associação estranha, mas que resultou bastante bem (e mesmo se ele insiste nos teclados e na electrónica no saxofone).
Creio que a relação de Wilkins com Jason Moran é mais do que profissional, mas de amizade também, e não terá sido surpreendente o convite do saxofonista ao mestre e mentor para o palco, com Micah Jones relegado por momentos para os teclatos, deixando o piano para o monstro.
Jason Moran toca o que quer, literalmente, de música erudita aos blues, e o concerto acabou com um hino «Oh Mighty God», seguido de um blues que se prolongou, daqueles que podem durar o resto da noite, entra um, sai outro, sola o piano, sola a bateria, toca o órgão, toca o saxofone, entram todos, ao desafio, divertem-se. E nós também.

Joe Lovano & Antonio Faraò "Explorations" feat. Ira Coleman And Ferenc Nemeth
Não há muito a dizer sobre o concerto de Joe Lovano, que eu diria consensual.
O conhecimento de Lovano e Faraò data do início do milénio, quando o saxofonista aceitou o convite do contrabaixista Giovanni Tommaso para tocar em «Secondo Tempo» onde Faraò era o pianista, e os dois músicos haveriam de se encontrar de novo, em 2013, para gravar Evan, com Lovano como membro - convidado especial do Antonio Faraò American Quartet.
O grupo actual, «Explorations» é a reactivação do quarteto, assumidamente um grupo de estrada, com Johnathan Blake alternando com Ferenc Nemeth na bateria.
Faraò e Lovano partilham a direcção do grupo, mas a presença dos nomes dos quatro músicos no nome do grupo reflecte a sua importância.    
Claro que o som grave, caloroso, do saxofone tenor empecha a democracia do grupo, embora todos os quatro contribuam para o todo, e eu creio que os arranjos estejam a cargo do pianista (e provavelmente a direcção musical), com uma presença determinante.
A música escorre sem engulhos, com uma secção rítmica eficaz e interventiva, com bastantes solos a apelar ao público, e sobre tudo o som caloroso do grande Joe Lovano, envolvente, inconfundível, definitivo.    

E foi assim o Funchal Jazz de 2026, com a promessa de um melhor 2027!

Todas as fotos por Carolina Santiago

Leonel Santos viajou a convite do Funchal Jazz

https://www.funchaljazz.com/

Programador/ Director Artístico PAULO BARBOSA
Iniciativa CÂMARA MUNICIPAL DO FUNCHAL