Agenda Jazz, lamechice, vanglória e pensamentos profundos

Mais de meio ano após o último contacto, regresso com boas e más notícias.

Começo com as más: A Agenda Jazz acabou. Senti-me cansado e aproveitei a sabática para pensar, e concluí que tinha que acabar. E deixem-me contar a História da Agenda Jazz fazer o seu epitáfio.

A Agenda Jazz (Agenda para os amigos) começou em 2005 a partir de um pedido do Tó Zé: «Ó Leonel, tu é que andas a par dos concertos, podias-me ir informando do que se passa».

Amigo e colega, o Tó Zé era um melómano ecléctico, que gostava de tudo menos pimba (agora parece que o pimba está na moda, é a javardice na política, na sociedade e na música...) e o Jazz estava entre os seus dilectos, mas o mundo dele eram computadores e não tinha tempo para ver notícias. Mas depois disso passei a encontrá-lo regularmente nos concertos, e recordo-me de me ter agradecido efusivamente por o ter avisado do Keith Jarrett (o Standards Trio, com Jack DeJohnette e Gary Peacock, CCB, Novembro de 2006).

Ao longo do ano seguinte fui alargando a plateia (alguns talvez abusivamente), ao mesmo tempo que constatava da utilidade da Agenda conforme ela ia sendo solicitada, e muito rapidamente concluí também que necessitava de um local onde pudesse ser consultada.

Se nos primeiros tempos eu andava atrás dos concertos, a partir de algum tempo a informação passou a vir ao meu encontro, e a Agenda foi crescendo com a informação dos concertos dos músicos nacionais, de norte a sul e às ilhas. Foi um trabalho que eu fiz sozinho, voluntário, ninguém me pagou, porque quis, e a minha retribuição foi fazê-lo.

JazzLogical nasceu daí, e fui construindo o site sozinho com os meus exíguos conhecimentos de html e alguns instrumentos amadores; desde sempre dirigido ao público, gratuito e livre, como uma espécie de «serviço público», como escreveu elogiou um dia o saudoso Manuel Jorge Veloso.

A Agenda foi crescendo e evoluindo, e muito rapidamente passou a incluir as formações das bandas, os instrumentos e mais alguma informação (não apenas por respeito pelos músicos, mas porque o Jazz é uma música colectiva, e não é indiferente quem é que está na bateria, ou porque a música muda quando muda o guitarrista!), enquanto o site passava a incluir crítica de concertos e discos e a informação semanal começava a ter os meus destaques, obviamente subjectivos.

Para ser justa, isto é, para ter a sua razão de ser, a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, quero dizer, feita de um ponto de vista exclusivo, mas do ponto de vista que abre mais horizontes. (A Invenção da Modernidade, Charles Baudelaire, Relógio D'Água)

Pois a Agenda Jazz foi sempre independente, mas naturalmente subjectiva (e parcial e apaixonada e política): os destaques foram e são os meus destaques, do Jazz que eu acho importante ouvir, e foram e são susceptíveis de contestação.

Ainda assim, convenhamos, se eu sempre tinha pugnado pela independência, seria provavelmente ingenuidade (ou impostura) pensar que alguém não é influenciável, mas creio que procurei, mesmo na subjectividade dos destaques, ser o mais objectivo possível.

Enfim, JazzLogical cresceu até uma média de mais de 400 entradas diárias e mais de 900 endereços na newsletter (que já continha os meus destaques dos concertos da semana); JazzLogical e a Agenda Jazz ganharam - presunção minha - um espaço no panorama Jazz português .

Os meus leitores, a audiência da Agenda Jazz e de JazzLogical é um dos motivos que me perturbou quando decidi acabar com a Agenda. De certa forma senti-me a trair os meus leitores, e é um sentimento que me agasta.

Pois a Agenda Jazz acabou. Não porque eu pense que ela já não é necessária, mas porque estou velho para fazer o trabalho sozinho, e preciso abrandar, e quero ter tempo para outras coisas, para escrever sobre outras coisas também.

Foram vinte anos (eu era vinte anos mais novo), o Tó Zé há muito que partiu, foi cedo para a terra das grandes pradarias, o Jazz também já é outra coisa, como o mundo, e muitas vezes me questionei da utilidade ou importância do que eu estava a fazer, quando as bombas de Israel iam dizimando a população inocente de Palestina (não, não estou a desculpar o Hamas, que é um bando de fanáticos religiosos), ou as mulheres são assassinadas no Afeganistão (ou Irão ou Arábia Saudita…), ou o «Ocidente» resolve a estagnação da economia através da indústria do armamento (e da guerra, mas as armas são para usar, né?), ou quando os senhores ministros das finanças entre o ambiente e a economia escolhem a depredação dos recursos naturais, etc, etc, - o que é que eu estava a fazer, qual era a importância do que eu estava a fazer; e eu continuei, porque acredito que ainda não chegou o momento de apagar as luzes (como dizia o velho Jim).

Well, the music is your special friend,
Dance on fire as it intends,
Music is your only friend until the end,
e
When the music's over, turn out the lights

Mas eu acredito que ainda não chegou o momento, acredito que ainda há coisas bonitas neste mundo e que a música tem de continuar.

Pensamentos profundos, estão a ver, estou a divagar. Chega de lamechice, chega de vanglória; fiz a Agenda Jazz porque quis, porque gosto de música e de Jazz e porque achei que tinha utilidade e porque me deu prazer e porque as melhores coisas da vida são gratuitas.

Agora a Agenda acabou. Preciso parar, não me apetece andar a correr atrás de nada, e os meus amigos vão-me perdoar mas vou fazer outras coisas.

(Para já resolvi ouvir os meus discos por ordem alfabética e tenho para os próximos três anos. Comecei em Março e já vou no B: Patricia Barber, Chet Baker, Kenny Barron.., e descobri que tinha coisas de que nem me lembrava e fui surpreendido por outras – grande grande Geri Allen e John Abercrombie e Pepper Adams e Cannonball Adderlley e Art Ensemble e Ray Anderson e, sim, o eterno Louis Armstrong, capaz de surpreender; e acho que a seguir vem o Carlos Barretto e o Count Basie…; e descobri que tinha alguns discos estragados, outros sem capa, outros sem disco e discos que nem sabia que tinha. Muito que fazer.)

E agora as boas notícias.

JazzLogical ainda não vai acabar, pelo menos é essa a minha intenção. Quero escrever sobre outras coisas e o texto que estou a publicar «As mulheres e o Jazz» é disso exemplo, como o texto sobre o Funchal Jazz ou a minha selecção de discos do imortal Sonny Rollins.

Para a semana, ou na outra, quando me aprouver, voltarei com mais, sobre acontecimentos, efemérides, livros, discos ou concertos, sem obrigação e sem regularidade.

Enfim, quero dedicar também mais tempo a’O Gato Escarninho porque, ao contrário do que alguns dizem, a vida não é só Jazz, mas também há cinema e BD e livros e cerveja artesanal e histórias para contar.

Uma última palavra para todos os que me escreveram ao longo destes meses, sem que eu lhes tenha respondido (vergonha). A todos as minhas desculpas e uma palavra de amizade. Vamo-nos encontrando por aí.


 

 

 

Agosto de 2026

O gato escarninho
JazzLogical