Jazz em Agosto

 

 

 

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JAZZ EM AGOSTO - REFLEXÕES

Polémico desde a primeira hora, o Jazz em Agosto soube trazer no passado, apesar de alguns faux pas ocasionais, alguns dos nomes mais interessantes e inovadores do Jazz que se fazia na Europa e nos EUA.

Iniciado em 1984 - vivia-se um período pós free-jazz -, nos anos seguintes passaram pelo Jazz em Agosto a fabulosa Sun Ra Orchestra, os representantes da linha africanista Art Ensemble Of Chicago, também o Dave Holland Quintet de Raizor's Edge, o Paul Motian Trio com Bill Frisell e Joe Lovano, o Jan Garbarek Quartet, a Vienna Art Orchestra, Jimmy Giuffre, Tim Berne, Willem Breuker Kollektief, Steve Coleman, e inúmeros outros em concertos memoráveis. O free estava presente, mas também o questionável Jazz da editora de Munique ECM ou a irreverência da downtown nova-iorquina, entre algumas coisas mais questionáveis. Ainda assim, com alguns desses momentos talvez mais pretensiosos, estes primeiros anos sob a direcção de Rui Neves - e o suporte de Madalena Perdigão, directora do ACARTE/ Gulbenkian - fizeram do Jazz em Agosto um festival incontornável no panorama nacional e mesmo muito para além.

Findo o primeiro comissariado de Rui Neves, o Jazz em Agosto encetou outros formatos com outras direcções, com resultados variáveis, sendo de relevar a inesquecível homenagem a Max Roach do período Hot Club – Luís Hilário em1995.

Em 2000 Rui Neves regressa. Alguma coisa se passou entretanto e o Jazz em Agosto não voltaria a ser o mesmo. Os tempos tinham mudado, a sociedade tinha mudado e o panorama do Jazz tinha mudado também: muitos dos produtos que o festival trouxera em primeira-mão a Portugal nos anos 80 tinham entrado no mainstream e percorriam já as salas de concertos de norte a sul.

O festival procurava reencontrar a personalidade que o distinguira, mas onde estava a vanguarda do Jazz? O colectivo de ilustres que a edição do ano 2000 do Jazz em Agosto reuniu, concluiu que a fragmentação estética era a dominante do Jazz do virar do século, mas a verdade é que a resposta não foi a melhor. Na busca do futuro, o Jazz em Agosto reencontrou com frequência o passado e muitos equívocos.
Enfim, se alguns objectos se dirigiam desde a primeira edição a passos largos para fora do Jazz, ocasionando com frequência excessivas polémicas (a eterna polémica) sobre os limites do Jazz e a sua definição, a verdade é que não é possível observar o Jazz em Agosto do ponto de vista crítico, sem introduzir nessa crítica valores que a crítica de Jazz tradicional não contempla como a modernidade – a utopia da eterna juventude! -, mas também alguns outros que dizem respeito a outras formas de arte, inclusive artes plásticas, e sem os quais não é possível entender algumas das experiências que por lá passaram. Com frequência ele parece afirmar-se não tanto pelas propostas, mas contra o Jazz mainstream. Música de alto risco, não escapa com frequência ao pretensiosismo dos movimentos experimentalistas, esvaindo o mérito que inequivocamente possui na antecipação do futuro.

O Jazz em Agosto não facilita a vida à crítica, e não é fácil ser objectivo. O problema que se colocou desde sempre (na crítica ao festival) é em primeiro lugar que, se por um lado ele se denomina festival de Jazz, ele coloca o Jazz apenas como ponto de partida. De forma altaneira permite-se introduzir todo o tipo de objectos estranhos, reivindicando-se da vanguarda do Jazz ou num eufemismo mais recente «das novas tendências do Jazz». Esta nuance curiosa advém de um pensamento que considera que a vanguarda do Jazz desapareceu (e o Jazz está em vias de desaparecimento) com o esvaecer do free, sendo substituído pelo «Jazz Livre» ou a «música improvisada», «música improvisada estruturada», etc.… A confusão vanguardista que se estabeleceu vai muito para além do Jazz em Agosto e, conforme as conveniências, ora apresenta como novidades sobrevivências da vanguarda do free-jazz dos anos 70, ora descobre experiências que normalmente têm mais de espectáculo e provocação que música.

Curiosamente esta confusão parece ter ganho adeptos entre a crítica, como lamentavelmente entre alguns músicos. Tenho lido críticas que aplaudem músicos que tocam deitados, provavelmente porque é diferente e radical. Como parece ser moderno levar laptops para o palco, porque os computadores são uma coisa moderna, talvez. Ou atiradores de objectos. Ou manipuladores de gira-discos. Ou multimédia. Se é dissonante é bom. Se é noise é fixe (e note-se que nada me ofende a introdução do noise, dos gira-discos ou dos laptops. Construir música e não espectáculo para pacóvio encher o olho é coisa diferente...). Por outro lado parece haver um entendimento da História que a assemelha a uma linha recta: se a vanguarda do Jazz tinha como valor nos anos 70 o ruído, o Jazz do século XXI deve ter ainda mais ruído. Por isso é que a luxuriante Globe Unity dos anos 70, por exemplo, foi transformada numa parede de ruído sem qualquer subtileza, com o aplauso bacoco da crítica vanguardista-evolucionista. E este afinal será um bom exemplo do desnorte dessa vanguarda delida do Jazz dos anos 70 que não soube transformar-se, que não souberam encontrar o caminho da modernidade, preferindo prolongar um ou outro elemento do que eventualmente terá feito a sua originalidade nesse tempo.

O Jazz do futuro que o Jazz em Agosto tem privilegiado é com frequência este ou os seus sucedâneos. Ou pelo contrário tem encontrado na «música improvisada» dos atiradores de objectos e nos manipuladores de giradiscos e laptops a vanguarda, não apenas do Jazz, mas da Música! Mas a vanguarda de um tempo não pode ser a vanguarda de outro tempo. Se há lugar a vanguardas na era da Internet, é outra questão sobre a qual observar e meditar.

A modernidade é um critério traiçoeiro. Os jovens gostam de o apresentar como valor positivo universal, mas um pouco de maturidade não faria mal à crítica que lhe permitisse observar que nem tudo o que é moderno é bom (como há muito Vinho do Porto estragado). Dito isto não significa que o modernidade seja um valor a ignorar, bem pelo contrário. Se existe algo a lamentar no Jazz português é precisamente o excesso de Jazz mainstream que tende a valorizar a repetição ao invés da criação, em nome muitas vezes da suposta Verdade do Jazz. Ora se existe uma característica definidora na História do Jazz é precisamente a sua capacidade de se reinventar. Do meu ponto de vista, eu creio que o Jazz em Agosto podia, mas não cumpre, esse papel de trazer ao público nacional o Jazz moderno. E podia até, se quisesse, contribuir para incentivar os músicos nacionais em busca de uma identidade moderna.

Enfim, onde está a modernidade, se ele ainda se coloca dentro do que pode definir-se como Jazz, mais importante qual o grau de elaboração e qual o valor real das propostas (expurgadas dos acessórios espectaculares), são algumas das tarefas que a crítica enfrenta na observação do Jazz em Agosto.

Festival personalizado entre os personalizados, o Jazz em Agosto afirma-se o detentor do futuro e de forma crítica contra o Jazz mainstream (como outros se apresentam de forma arrogante como os senhores do verdadeiro Jazz). Assim foi desde o seu início, mas na programação pós 2000, eu creio que o Jazz em Agosto teve alguns momentos felizes e muitos equívocos. Para a primeira categoria entram o Julius Hemphill Sextet de Marty Ehrlich em 2003, Joe Morris em 2000, The Claudia Quintet de John Hollenbeck em 2006 e Dave Douglas & Brass Ecstasy em 2009. Para a segunda entram Graham Haynes em 2000, Jean Luc Cappozzo / Axel Dörner / Herb Robertson em 2005, Larry Ochs / Fred Frith / Lê Quan Ninh, em 2006, os Hubbub em 2007, a Globe Unity Orchestra em 2005, John Zorn / Fred Frith e o Peter Brötzmann Chicago Tentet em 2008, ou o George Lewis Sequel em 2009.

Este texto está longe de esgotar os temas – o Jazz em Agosto, a definição do Jazz, a modernidade ou o papel da crítica – e a eles voltarei se necessário.

Agosto de 2009


Jazz em Agosto na internet:

http://www.musica.gulbenkian.pt/jazz/index.html.pt